terça-feira, setembro 17, 2019

DIREITOS

Foi uma resposta à censura e à opressão.


O canal no YouTube de Felipe Neto tem 330 milhões de visualizações mensais: público de todas as idades


Felipe Neto, 31 anos, é dono de um dos canais mais populares do YouTube brasileiro e conhecido por tomar posições firmes no campo da diversidade. A sua iniciativa de distribuir 14 mil livros na Bienal do Rio de Janeiro, depois que o prefeito Marcelo Crivella censurou sumariamente um gibi da Marvel com dois garotos se beijando, foi fenomenal.

Neto se mostrou estratégico e libertário, deu um passo de gigante para o amadurecimento da democracia e entrou de corpo e alma no debate político. As filas de leitores para ganhar os livros só se extinguiram depois de sete horas. Nos últimos dias só se falou de seu gesto contra Crivella. O que ele fez foi resistir a um ato arbitrário com contundência e elegância. “A campanha na Bienal foi uma forma de mostrar que o povo está unido e que lutará com unhas e dentes pela liberdade e pelo amor”, disse ele em entrevista à ISTOÉ.

O que o fez distribuir 14 mil livros com temática LGBTQI+ na Bienal do Rio de Janeiro? Pensou nisso assim que Marcelo Crivella censurou o gibi da Marvel?

Foi uma resposta à censura e à opressão. Não podemos mais nos calar perante o que está acontecendo. Há um plano de silenciamento e controle e nós, como população, precisamos nos levantar contra isso. A campanha na Bienal foi uma forma de mostrar que o povo está unido e que lutará com unhas e dentes pela liberdade e pelo amor. Deu muito trabalho, mas foi uma grande felicidade.




Por que era tão importante enfrentar a decisão do prefeito Crivella? O Rio de Janeiro está diante de um governante autoritário e obscurantista? Em sua opinião, o que leva um prefeito a atuar dessa forma?

O prefeito é ignorante e manipulador. Ele e outros líderes religiosos e políticos gostam de deturpar o Estatuto da Criança e do Adolescente para encaixar qualquer tipo de afeto homossexual na pornografia. É algo que você não espera de alguém com a mínima capacidade intelectual, mas infelizmente estamos falando de pessoas que, cada vez mais, defendem teorias da conspiração, se voltam contra a ciência e lutam para fazer lavagem cerebral naqueles que os seguem. É a multiplicação da ignorância e da intolerância.

Qual é o balanço que faz de sua ação? Seus objetivos foram atingidos? Imaginava que tivesse o alcance que teve? Por que sua iniciativa conseguiu tanto apoio?

A ação não foi minha, foi de todos, foi de cada voluntário e cada pessoa que pegou seu livro grátis. Foi de cada um que tirou foto, que se posicionou, que gritou contra o prefeito e contra a decisão estúpida de censura. A campanha foi um sucesso porque era voltada para o amor e a união, algo que está em falta no Brasil político em 2019.

A censura voltou? Teme que situações como essa passem a se repetir com frequência?

A censura com amparo legal já está ocorrendo em todos os cantos. Em todo tipo de evento, que envolva participação pública, a censura legalizada já está operando, como vimos na campanha do Banco do Brasil, vetada pelo presidente por ter diversidade demais, ou na proibição da palestra gratuita de Leonardo Boff no INCA, apenas por ser contra Bolsonaro. O que estão fazendo na Ancine (Agência Nacional do Cinema), então, nem se fala. Todo tipo de censura legal já está sendo aplicada, agora é questão de tempo até eles partirem para a censura ilegal de vez, como tentou fazer o prefeito Crivella.

Como viu as reações dos políticos do PSL à sua iniciativa? Houve uma reação coordenada contra você?

Sim, absolutamente coordenada, como eles sempre fazem, utilizando seus exércitos de robôs e pessoas manipuladas por grupos de Whatsapp. Contudo, o PSL é fraco, qualquer pessoa com uma mínima capacidade intelectual consegue ver que o partido é um circo composto por palhaços que não têm a menor graça. Os ataques deles contra mim acabam sendo um motivo de orgulho.

Como está o processo contra o deputado Carlos Jordy (PSL-RJ)? Ele é o autor do primeiro tuíte de ataque contra a distribuição dos livros LGBT. O que o incomodou nas postagens do deputado?

Meu processo contra o deputado em questão foi graças a um tuíte desse ano, em que ele afirmou que eu havia ensinado jovens a entrarem na deepweb. E que foi assim que os terroristas de Suzano conheceram o site onde coordenaram um grande assassinato. A Justiça já obrigou o deputado a apagar o tuíte e agora ele tenta alegar imunidade parlamentar para se safar do que fez. É o típico comportamento de gente como ele.

Você foi ferozmente atacado por robôs e por políticos aliados do governo de Jair Bolsonaro. Esperava por tal reação? Supunha que ela seria tão forte e virulenta?

Em primeiro lugar, precisamos que a CPI das fakenews vá para frente, mesmo com o PSL tentando de todas as formas impedir. Hoje (terça-feira 10) os seus deputados lutaram com unhas e dentes para não permitir que representantes do Whatsapp e do Telegram fossem convidados para a audiência pública. Por quê? O que o PSL tem a esconder? Qual é o medo do partido que se investigue a criação de fakenews para fins eleitorais e de ataques à reputação? Ora, porque eles sabem o que está por vir. Eles sabem que a caixa de pandora pode ser aberta a qualquer momento e derrubar muita gente. Quem financia o uso de robôs? Quem paga o monitoramento digital e organização de ataques? Encontrem essas respostas com investigação e parte do governo cairá.

O que tem a dizer para aqueles que tratam sua ação na Bienal como oportunista?

Convido a todos a conhecerem mais a minha história. Tenho certeza de que aqueles que me acompanham sabem da minha luta e enxergam a verdade. Mas, se mesmo assim, a pessoa quiser me enxergar como oportunista, não vejo problema. Prefiro ser visto como oportunista, mas lutando por um mundo melhor, do que ser visto como não oportunista, porém calado por medo de perder público.

Mesmo sendo heterossexual, emprestou a sua reputação para a causa LGBTQI+. Que mensagem quer passar?

Eu só quero fazer a minha parte na luta por um mundo melhor. Como homem hétero e branco, é meu dever reconhecer os privilégios que a vida sempre me deu e tentar utilizá-los na luta para que um dia todos possam ter o mesmo nível de privilégios. Não reconhecer a história e a luta da comunidade LGBTQI+ é perder um pedaço de sua própria humanidade.

Acha que o governo perde tempo ao travar batalhas contra influenciadores como você? O governo tem problemas maiores para enfrentar?

É óbvio que perde tempo, diversos deputados do PSL perdem mais tempo comigo do que com qualquer outro tema. Já teve deputado fazendo lives no plenário só para me atacar. O partido é uma balbúrdia, os políticos que lá estão envergonham o Brasil continuamente. Nunca na história da democracia o nosso País teve uma imagem tão patética para o restante do mundo.

Houve uma batalha das hashtags #PaisContraFelipeNeto e #PaisComFelipeNeto. Quem levou a melhor?

Não é questão de qual hashtag levou a melhor, mas sim de qual foi a narrativa. A hashtag criada pelo PSL foi dominada completamente pelas pessoas que defendem minha ação na Bienal, era totalmente desproporcional o nível de apoio em relação ao nível de crítica. Como falei, o PSL pode ter robôs, pode ter massa de manobra por correntes de Whatsapp, mas o PSL é fraco.

Você é um grande influenciador da juventude. Com esse movimento que acaba de criar, chegou a hora de influenciar também os pais? O público de Felipe Neto está ficando mais maduro?

Sem dúvida. Hoje, a quantidade de pais que acompanham meu canal é imensa. São mais de 34 milhões de inscritos e 330 milhões de visualizações mensais, não é possível atingir isso apenas com adolescentes. Muita gente já percebeu que o conteúdo do meu canal serve para todas as idades.

As mídias sociais são o melhor campo de batalha para enfrentar o bolsonarismo e sua vocação autoritária? O caminho é usar as mesmas armas?

Sim. Afinal, foi exatamente onde eles surgiram e se popularizaram.

Planeja mais ações em torno de causas progressistas?

Continuarei na luta diária de tentar levar o amor, a diversidade e a união para as pessoas que me acompanham. Sempre que possível, serei mais contundente, principalmente na luta pela democracia e contra a censura.

Como lida com a influência que tem? Sua posição exige enorme responsabilidade. Quais os cuidados que toma ao expressar a sua opinião?

Já abandonei os palavrões há três anos, não passo mensagens que possam atrapalhar a educação dos pais em casa, tento sempre ser um auxílio para os pais nesse sentido, dando mensagens positivas para todo mundo.

Um dos filhos do presidente, Carlos Bolsonaro, diz que o País não terá transformação rápida “por vias democráticas”. Há uma vontade ditatorial nessa declaração?

É o sonho deles e eles nunca fizeram o menor esforço em esconder isso. Os ídolos do pai são um torturador da ditadura (Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra) e um ditador assassino do Chile (Augusto Pinochet). O que mais podemos esperar?

Há um risco real de retrocesso democrático? O governo quer calar a oposição?

Óbvio que há, o próprio Jair Bolsonaro falou, às vésperas da eleição: “nós vamos varrer os opositores vermelhos do País”. Faz parte da estratégia dessa extrema direita que está no poder: taxar o inimigo como comunista e fomentar o ódio na população, para que ela própria comece a clamar por ordem e opressão. Só que, dessa vez, eles terão toda a resistência que a internet é capaz de proporcionar.

Você tem planos de entrar na carreira política?

Não. Nenhum.

De que trata o seu novo livro, “O mundo segundo Felipe Neto”. A política e as liberdades individuais são assunto da obra?

Não, de maneira alguma, é um livro leve que traz citações e material divertidos sobre a história do meu canal, além de um enigma escondido que precisa ser decifrado pelo leitor. Pretendo, no futuro, lançar mais obras literárias de conteúdo adulto, mas ainda não é a hora. Tudo no momento certo.

'Eu deveria contratar o prefeito do Rio para promover meu próximo livro', ironiza ilustrador de livro censurado por Crivella


Instagram de Jim Cheung À BBC News Brasil, o ilustrador britânico Jim Cheung, um dos autores do livro 'Vingadores, a Cruzada das Crianças', diz que ficou emocionado com a reação dos brasileiros em defesa dos direitos LGBT e da liberdade de expressão


O ilustrador britânico Jim Cheung foi surpreendido várias vezes nos últimos quatro dias.

Primeiro com a notícia de que um livro seu publicado em 2010 - Vingadores: a Cruzada das Crianças - havia sido censurado pelo prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, por conter um beijo entre dois personagens masculinos.

Depois, pela forte reação da imprensa e de milhares de brasileiros em protesto contra a medida. E, por fim, pelo forte aumento nas vendas da publicação.

"Eu deveria contratar o prefeito do Rio de Janeiro para promover meu próximo livro", ironizou ele ao responder, no Instagram, a um comentário de uma seguidora sobre o fato de todos os exemplares terem se esgotado na Bienal do Rio de Janeiro pouco após Crivella anunciar que fiscais confiscariam a publicação de Cheung.

O desenhista de 47 anos mora no Reino Unido e assina Vingadores: a Cruzada das Crianças em conjunto com o roteirista americano Allan Heinberg.

À BBC News Brasil, Cheung disse que ficou emocionado ao ver os brasileiros defendendo os direitos da comunidade LGBTQ e a liberdade de expressão. "É maravilhoso ver o povo brasileiro se posicionando e manifestando apoio à comunidade LGBTQ", disse.


'Eu aplaudo o povo brasileiro por se unir nesse protesto', disse Jim Cheung à BBC News Brasil


Ele destacou, porém, que o episódio revela que ainda há um longo caminho a ser percorrido para que haja verdadeira "igualdade".

"O fato de essa história ter alcançado manchetes demonstra as várias faces da sociedade moderna. Mostra que as comunidades estão aceitando suas diferenças e diversidade, mas também revela a dificuldade que ainda enfrentamos na busca por igualdade a todos", destacou à BBC News Brasil, por email.

"Eu aplaudo o povo brasileiro por se unir nesse protesto."

Jim Cheung tem dezenas de livros em quadrinho no currículo e é reconhecido internacionalmente, principalmente por ilustrar séries da editora Marvel Comics, como Novos Vingadores, Illuminati, Jovens Vingadores e Vingadores.

Já Allen Heinberg, que também assina Vingadores: a Cruzada das Crianças, foi produtor do bem-sucedido filme Mulher Maravilha (2017), que arrecadou US$ 821,8 milhões em bilheteria no mundo todo e é protagonizado pela israelense Gal Gadot.

Ele produziu ainda os seriados Grey's Anatomy (2005), um dos dramas mais populares da televisão americana, e Sex and the City (1998), seriado da HBO estrelado por Sarah Jessica Parker.

Reviravoltas do caso do livro

No dia 5 de setembro, Marcelo Crivella determinou o recolhimento da Bienal do Rio dos exemplares do livro de Cheung, por conter a imagem de um beijo entre dois personagens masculinos. Em vídeo na internet, Crivella afirmou que "livros que trazem conteúdo sexual para menores precisam estar embalados com plástico preto, lacrados, e com aviso do conteúdo".

A cena que aparentemente chocou Crivella retrata o personagem Teddy Altman tentando levantar o ânimo do seu namorado, Billy Kaplan, que está deprimido. "A vida é muito curta para você ficar aqui sentado desperdiçando a sua", diz Teddy. Depois de incentivar o parceiro a reagir, os dois trocam um beijo.

Na sexta-feira (6), um dia depois da decisão de Crivella, todos os exemplares de Vingadores: a Cruzada das Crianças foram comprados antes que pudessem ser recolhidos. Depois, o youtuber Felipe Neto comprou mais de 14 mil livros com temática LGBT disponíveis na Bienal e distribuiu as publicações gratuitamente.

Na tarde do dia 6 de setembro, fiscais foram à Bienal, mas disseram não ter encontrado livros impróprios ou medidas que contrariam a lei.

O episódio também sofreu várias reviravoltas na Justiça.

Após a primeira visita dos fiscais, a organização da Bienal entrou com um recuso no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro contra a decisão do prefeito e para assegurar o "pleno funcionamento do evento".

O desembargador Heleno Ribeiro Pereira Nunes acolheu o pedido e determinou que fiscais não podem interferir na Bienal. Depois, o presidente do TJ-RJ, Cláudio de Mello Tavares, cassou essa decisão e liberou a medida determinada pela Prefeitura do RJ.

Fiscais chegaram a voltar à Bienal em busca de "conteúdos impróprios" para menores, mas novamente disseram não ter encontrado nada que ferisse a lei. No sábado (7), o jornal Folha de S.Paulo publicou na capa a imagem dos dois personagens do livro se beijando.

O fato foi noticiado por alguns jornais estrangeiros, como o britânico The Guardian e o americano Newsweek.

Por fim, no domingo (8), o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), José Dias Toffoli, atendeu a pedido da procuradora-geral da República, Raquel Dodge, e cassou a liminar do presidente do TJ-RJ.

Toffoli argumentou que a decisão de Crivella associou relações homoafetivas a conteúdo impróprio, o que, segundo ele, fere o "princípio da igualdade".

"Ademais, o regime democrático pressupõe um ambiente de livre trânsito de ideias, no qual todos tenham direito a voz. De fato, a democracia somente se firma e progride em um ambiente em que diferentes convicções e visões de mundo possam ser expostas, defendidas e confrontadas umas com as outras, em um debate rico, plural e resolutivo", disse o ministro do STF.

A Prefeitura do RJ informou que vai recorrer da decisão.

O que diz a lei?

Em seu Artigo 78, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) diz que "revistas e publicações contendo material impróprio ou inadequado a crianças e adolescentes" devem ser vendidas em embalagem lacrada, com a advertência sobre o conteúdo.

O estatuto também determina que "as editoras cuidarão para que as capas que contenham mensagens pornográficas ou obscenas sejam protegidas com embalagem opaca."

Porém, ao contrário do que diz a prefeitura, a legislação não define o que seria "impróprio" - seja um beijo hétero ou homossexual.

O defensor Rodrigo Azambuja, coordenador de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, diz que o ECA não especifica quais tipos de conteúdo se enquadram na categoria de "impróprio", mas há materiais que são inegavelmente inadequados para crianças, como aqueles que trazem temática de violência ou pornografia.

Segundo ele, porém, há outros que são claramente próprios: beijos e demonstrações de afeto entrariam nessa segunda classificação, por serem comportamentos comuns.

'Momento de afeto entre dois personagens'

Num comunicado publicado no seu Instagram no dia 6 de agosto, Jim Cheung disse que a cena do beijo no livro Vingadores, a Cruzada das Crianças simplesmente "retrata um momento de afeto entre dois personagens" que vivem um relacionamento estável.

"Eu não sei o que motivou o prefeito a perseguir um trabalho publicado há quase uma década e que já estava a venda há vários anos", escreveu.

"Mas eu posso dizer com honestidade que não havia qualquer motivação secreta ou agenda nesse trabalho que fosse destinada a promover um estilo de vida em particular ou atingir um público específico. A cena simplesmente mostra um momento de afeto entre dois personagens que estão num relacionamento sério."

Cheung ainda afirmou que o fato de um livro publicado há quase 10 anos estar recebendo tanta atenção do prefeito do Rio revela o quanto ele parece estar "desconectado com a realidade atual".

"A comunidade LGBT está aqui para ficar e eu não tenho nada além de amor e simpatia por aqueles que continuam a lutar por aceitação e para terem suas vozes ouvidas", escreveu.


2 comentários:

  1. Parabéns ao Felipe Neto! Um tapa na cara dos pseudo-moralistas, que usa a religião para destilar ódio e continuar abusando da boa-fé do povo, sugando seus recursos em nome de um deus que eles não seguem.

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  2. Realmente é o que está acontencendo em várias esferas, a censura. Tudo leva a crer que estão tentando colocar um regime anterior a 1988, com frases ditas e depois alterando seus significados devido a várias opiniões contrárias. A liberdade de expressão, e a DEMOCRACIA deve prevalecer.

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