sexta-feira, setembro 06, 2019

POLÍTICA

Indicação de Eduardo Bolsonaro para embaixador é reprovada por 70%, diz Datafolha.


Percentual é o mesmo que rejeita atuação dos filhos do presidente no governo.


A decisão do presidente Jair Bolsonaro de indicar seu filho, o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), para embaixador em Washington (EUA) é reprovado por 70% dos brasileiros, de acordo com pesquisa Datafolha publicada nesta quarta-feira (4). Segundo o levantamento, apenas 23% aprovam a indicação.

A escolha foi anunciada em julho, mas ainda não foi oficializada. A nomeação depende de aprovação no Senado.

A pesquisa foi feita entre os dias 29 e 30 de agosto, com 2.878 pessoas em 175 municípios de todo o país. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, dentro do nível de confiança de 95%. 

Entre os eleitores de Bolsonaro, 53% avaliam que o presidente agiu mal ao indicar o filho, e 40% acham que ele agiu bem. Já entre quem votou em Fernando Haddad (PT), 88% rejeitam a indicação e 9% a apoiam.




A indicação é rejeitada, de modo geral, em praticamente todos os estratos pesquisados, com exceção dos simpatizantes do PSL, partido do presidente. Nesse grupo, 64% apoia a decisão. No grupo que classifica o governo como ótimo ou bom, a aprovação à medida é de 54%.

Entre as regiões do país, a ideia foi mais mal recebida no Nordeste (76% contra) e no Sudeste (71%). Tanto no Sul, reduto do eleitorado bolsonarista, quanto no Norte e no Centro-oeste, 65% se opõem à nomeação.

O perfil de maior rejeição à nomeação é de jovens de 16 a 24 anos (74%), funcionários públicos (81%) e estudantes (78%). Por outro lado, a decisão é melhor aceita entre pessoas com mais de 60 anos (26% acham que Bolsonaro está agindo bem), empresários (36%) e donas de casa (29%).

Quanto à religião, a proposta sofre mais críticas de ateus (95%). Entre os evangélicos, 61% são contrários.

O percentual de 70% rejeição à indicação, que provocou debates se é um caso de nepotismo, é equivalente ao índice dos reprovam a interferência dos filhos do presidente no comando do País.

A fim de mostrar proximidade com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Eduardo viajou a Washington e se reuniu durante 30 minutos na Casa Branca na última sexta-feira (30). Não foi feito qualquer anúncio após o encontro. O presidente americano disse em julho que apoia a indicação.

Para ser efetivado, o nome do deputado, que não tem carreira diplomática, precisa ser apreciado pela Comissão de Relações Exteriores do Senado e pelo plenário da Casa por mais da metade dos parlamentares presentes. Não há data prevista para essas votações.

Senadores criticam postura 'arrogante' e atropelos de Eduardo Bolsonaro nos EUA.


Donald Trump cumprimenta Eduardo Bolsonaro em visita de comitiva brasileira à Casa Branca na sexta passada.


Enquanto o filho estava com Trump, Jair Bolsonaro assumiu pessoalmente a negociação de cargos para tentar garantir a aprovação da indicação de Eduardo para embaixada.

A passagem de Eduardo Bolsonaro pelos Estados Unidos no fim da semana passada foi vista como “arrogante” por muitos senadores, aos quais cabe a análise da indicação do deputado federal para a embaixada do Brasil em Washington. Acompanhado pelo ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, o filho do presidente Jair Bolsonaro se recusou a falar com a imprensa estrangeira, contradisse o chanceler e o tratou o como se fosse seu “secretário”. Enquanto isso, seu pai entrou pessoalmente em cena para tentar garantir, no Senado, a quantidade de votos necessária para avalizar Eduardo como embaixador para, então, finalmente formalizar a indicação. 

Oficialmente, a viagem de Eduardo e Ernesto aos EUA seria para tratar de Amazônia e um possível acordo em torno da região, que se tornou o centro das atenções com as queimadas e desmatamento crescentes. O aspirante a embaixador postou em seu Twitter na sexta-feira (30) sobre a reunião com o presidente norteamericano Donald Trump e disse que o republicano aceitou a proposta brasileira “de trabalhar conjuntamente para desenvolver de forma sustentável a Amazônia”. Segundo o deputado, na pauta também estiveram “acordos de livre comércio e de treinamento militar conjunto”. 

Apesar de negar que a comitiva brasileira tenha feito um pedido específico a Trump sobre a Amazônia, o ministro do Itamaraty reconheceu no encontro uma forma de emitir à comunidade internacional sinais sobre a parceria com os americanos.

Um aliado do deputado disse que ele “soou arrogante” ao querer “se mostrar por cima”. 

Ainda após a reunião, o filho de Jair Bolsonaro se recusou a responder à imprensa estrangeira. Segundo relato da Folha de S.Paulo, um dos repórteres que acompanha o dia a dia na Casa Branca questionou Eduardo Bolsonaro sobre as críticas do presidente francês, Emannuel Macron, à política ambiental implementada pelo Brasil.

De acordo com o jornal paulista, o deputado respondeu em português: “Qual foi a pergunta? Responde você, Ernesto”. Em seguida, disse aos jornalistas brasileiros: “prefiro falar com os brasileiros, vocês são mais bonitos”. 

Essa sequência de acontecimentos foi descrita por um senador ao HuffPost como “tudo, menos bom”. “Teve desencontro no discurso dele com o do Ernesto, falta de tato com os jornalistas, um aparente desconhecimento do idioma e, pra fechar com chave de ouro, usou o chanceler como secretário dele.”

Jair negocia apoios a Eduardo embaixador

Um dos parlamentares que teceram críticas a Eduardo Bolsonaro é do PP, um dos partidos com os quais está a todo vapor a negociação de cargos, que já tem ocorrido desde julho, como revelou o HuffPost. Mas desta vez, a linha de frente é feita diretamente com o presidente Jair Bolsonaro. 

O presidente da legenda, Ciro Nogueira (PI), esteve algumas vezes desde a semana passada com Bolsonaro, ao lado do companheiro no Senado Davi Alcolumbre (DEM-AP), comandante da Casa.

Jair Bolsonaro admitiu negociar cargos no Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) e na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) para, segundo ele, “conseguir governar”. De acordo com informações de bastidor, porém, o presidente tomou a frente das articulações com os dois senadores que, acredita, têm grande poder de influência sobre seus pares. 

“Por conseguir governar, ele quis dizer conseguir aprovar o filho, nesse caso. Porque é para isso, exatamente com esse pedido, que ele está negociando os cargos”, afirmou ao HuffPost um senador que conversou recentemente com o presidente do Senado sobre o assunto e pediu anonimato para se preservar. 

Além do Cade e da Anvisa, o governo vem negociando cadeiras disponíveis ou por vagas em órgãos cujos orçamentos, juntos, ultrapassam R$ 2,5 bilhões. São vagas na Anac (Agência Nacional de Aviação Civil), na Anatel (Agência Nacional de Telecomunicações), e na ANA (Agência Nacional de Águas). Em segundo plano, estão colocados na mesa ainda cargos na Sudam (Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia), Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), Sudeco (Superintendência do Desenvolvimento do Centro-Oeste), Banco do Nordeste e Banco da Amazônia. 

O HuffPost entrou em contato com a assessoria dos senadores Ciro Nogueira e Davi Alcolumbre. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Com a entrada do presidente nas negociações, diz-se pelos corredores que a situação mudou. Um cenário que há cerca de três semanas parecia incerto hoje se avalia mais favorável a Eduardo Bolsonaro. 

O presidente segue decidido a indicar o filho para a embaixada brasileira nos EUA. Ainda aguarda certeza de que ele será aprovado no Senado. 

Após formalizar o nome, com o envio da mensagem presidencial para a Casa, Eduardo passará por uma sabatina na Comissão de Relações Exteriores e, em seguida, será submetido a uma votação no plenário.

Indicações de embaixadores se dão em votações por maioria simples dos senadores, ou seja, basta que a metade mais um dos presentes concorde. Porém, sabe-se que pelo menos 30 parlamentares são irrevogavelmente contra o filho do presidente no cargo pretendido. Trabalha-se, então, com os demais 50 — o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, embora participando das negociações, não costuma votar. 

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