terça-feira, dezembro 31, 2019

MINHA VIDA GAY


‘Eu sabia desde os 3 anos que era um menino em um corpo de menina’.


Joe Shatford, hoje com 14 anos.

Com as estatísticas mostrando um aumento de procura de tratamento de hormonização para crianças, um adolescente contou ao HuffPost UK a sua experiência.

“Mamãe, por que eu penso como menino, mas pareço menina?”

Logo aos 3 anos de idade, Joel Shatford sabia que não estava à vontade em seu corpo de menina. Ele preferia calças a vestidos; gostava de azul, não de rosa; queria pijamas do Ben 10, não estampas floridas. No parquinho, ele sempre queria brincar com os meninos.

“Me sentia diferente e queria entender. Definitivamente a sensação era de que algo estava errado”, diz Joe. “Disse para minha mãe, da melhor maneira que consegui, que na minha cabeça eu era menino.”

Na última década, essa sensação se cristalizou. Joe, hoje com 14 anos, está em processo de transição desde os 7 anos. Atualmente, depois de consultar médicos e terapeutas, ele está tomando bloqueadores de hormônios para suprimir os efeitos da puberdade feminina. Quando for mais velho, pretende fazer uma cirurgia de mudança de sexo.

Essa é uma decisão considerada controversa, especialmente porque se trata de uma pessoa jovem. Alguns críticos afirmam que crianças e adolescentes são imaturos demais para tomar decisões a respeito da identidade de gênero. Estudos indicam que a chamada “disforia de gênero” nem sempre se estende até a vida adulta, e em muitos casos pode desaparecer antes ou no início da puberdade. Mas muitos ativistas dos direitos dos trans acreditam que decisões tomadas por jovens devem ser apoiadas pela família, pelos amigos e pela comunidade médica – especialmente diante dos potenciais traumas envolvidos.

A Associação Mundial de Profissionais em Defesa da Saúde das pessoas Trans recomenda que profissionais de saúde mental ajudem as famílias a responder de forma acolhedora. “Recusar intervenções médicas para os adolescentes pode prolongar a disforia de gênero e contribuir para uma aparência que pode levar a abusos e estigmatização.”

Em meio a esse debate, Joe e sua mãe conversaram com o HuffPost UK. Ele acha que é importante contar sua história publicamente – e mostrar fotos do álbum de família ?, para que outros jovens que sintam o mesmo saibam que não estão sozinhos.

“Eu simplesmente sabia que era menino”, diz Joe, que mora na cidade de Clitheroe, Lancashire, no Reino Unido. “Soube minha vida inteira.”


Joe Shatford quando era pequeno.


"A mãe de Joe, Ava Greenall, 46, diz que sentiu-se atingida por uma “bala tranquilizante” quando seu filho lhe contou o que passava. “Fiquei desorientada”, disse. Mas ela deixou claro que sempre apoiaria o filho.

Os médicos dizem que é normal que crianças se recusem a usar roupas típicas de menino ou menina ou não queiram participar de atividades típicas de cada gênero. “Na maioria dos casos, esse comportamento é parte do crescimento e passa com o tempo”, diz o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido.

“Não queria influenciar a identidade de gênero dele, decidi esperar para ver o que aconteceria. Tudo dependia do que ele estivesse sentindo”, disse Greenall.

Para Joe, os sentimentos não eram só uma fase. Pelo contrário, eles ficaram mais intensos conforme ele crescia.

Cortar o cabelo foi incrível. Não conseguia parar de sorrir. Foi libertador."

-Joe Shatford

As meninas britânicas usam saia como parte do uniforme escolar, o que deixava Joe muito pouco à vontade. “Quando chegava em casa, a primeira coisa que fazia era tirar a saia e respirar aliviado”, disse Joe à reportagem.

Quando era pequeno, Joe tinha cabelo comprido, e sempre usava tranças. Quando fez 5 anos, pegou um par de tesouras na cozinha e cortou quase tudo.

“Cortar o cabelo foi incrível. Não conseguia parar de sorrir”, conta Joe. “Meu cabelo era enorme. Eu odiava, porque aquilo representava ser menina. “Cortá-lo foi libertador.”

“Me olhei no espelho e pensei: ‘Com certeza sou menino’. Minha aparência exterior finalmente refletia o que eu sentia por dentro.”


Logo nos primeiros anos de escola Joe já se identificava como menino.


Joe em foto da escola.


Não demorou para que ele pedisse aos amigos para chamá-lo de Joe – seu nome de batismo é Jo. Ele também queria que usassem os pronomes masculinos “ele” e “dele”.

“Na cabeça dele, ele achava que estávamos brincando, mas ele queria ser levado a sério”, disse sua mãe. “Ele queria os pronomes corretos.”

Greenall levou o filho ao médico quando ele tinha seis anos. O clínico geral recomendou que eles consultassem o serviço GIDS, do sistema de saúde britânico que lida com questões de gênero. Especialistas em saúde mental exploram a identidade de gênero das crianças, atual e passada, e oferecem aconselhamento para elas e suas famílias.

No último ano, 2 590 crianças e adolescentes procuraram o serviço – um aumento considerável em relação aos números de dez anos atrás. Em 2009/2010, o serviço atendeu somente 77 jovens.

Joe recebeu o diagnóstico de disforia de gênero. Ele é um dos pacientes mais jovens atendidos pelo serviço.

Polly Carmichael, diretora do GIDS, diz que não existe uma única explicação para o aumento da procura na última década.

Mas ela observa que, nos últimos tempos, houve progresso significativo em relação “à aceitação e ao reconhecimento de transgêneros e pessoas com identidades de gênero diversas em nossa sociedade”.

“Também há mais conscientização sobre clínicas especializadas e sobre os possíveis tratamentos físicos para jovens adolescentes”, disse ela ao HuffPost UK.

A ONG Mermaids, que atua na conscientização sobre a não-conformidade de gênero entre crianças e jovens, também notou um aumento enorme na procura por seus serviços.

Segundo a organização, em 2014 a central de atendimento da Mermaids recebeu apenas 500 telefonemas. Este ano, o total chegou a quase 10 000.

Joe estudava numa escola católica. Depois de uma conversa com os diretores e com um grupo de apoio LGBT, decidiu-se que ele passaria a ser chamado de Joe.

Os professores explicaram para os outros alunos o que estava acontecendo. Mas esse tipo de situação pode causar bullying.

“Alguns dos meninos achavam que eu era esquisito e começaram a me xingar”, conta Joe. Ele também agressões físicas, mas, com o tempo, as coisas se acalmaram.


Joe Shatford, hoje com 14 anos.


O ensino médio representou um recomeço. “Os primeiros meses foram tranquilos. Todo mundo me chamava de Joe, e as coisas foram bem”, diz ele. Mas aí a notícia começou a se espalhar.

Joe voltou a ser vítima de bullying. Certa vez, no ônibus da escola, um grupo de meninos mais velhos o acuou e começou a agredi-lo verbalmente. “Depois desse dia, não queria pegar mais o ônibus”, diz Joe. A escola interveio, e tudo voltou ao normal.

“Agora está tudo ótimo. Não sou mais o assunto da escola”, diz Joe. “Ainda ouço uma ou outra coisa, mas não me atinge. Tenho um ótimo grupo de amigos, e todos me apoiam.”


“Ainda ouço uma ou outra coisa, mas não me atinge”, diz Joe.


Socialmente, a transição de Joe começou aos sete anos. Agora, ele quer fazer a transição física – e está recebendo aconselhamento a respeito dos procedimentos. Ele toma bloqueadores de hormônios desde os 11 anos, mas, como seu corpo começou a mudar desde muito cedo, ele usa uma cinta no peito.

A próxima etapa será tomar testosterona, o hormônio masculino. Isso vai provocar mudanças em seu corpo – nem todas irreversíveis ?, incluindo a mudança da voz.

Segundo as diretrizes do serviço de saúde britânico, esses hormônios podem ser receitados para jovens com mais de 16 anos e que tomam bloqueadores há pelo menos um ano.

A testosterona também pode afetar sua fertilidade, então Joe terá de decidir se quer coletar e congelar seus óvulos, caso um dia queira ter um filho biológico.

Sua mãe também quer que ele considere essa opção. Mas Joe diz que “se quiser ter filhos no futuro, vou adotar”.


Joe, hoje com 14 anos.


Carmichael, do GIDS, reconhece que pacientes e famílias têm opiniões fortes a respeito do tema. Alguns defendem que o tratamento físico possa ser iniciado mais cedo. Outros, pelo contrário, acham que ele simplesmente não deveria ser oferecido a pessoas tão jovens.

“Nosso compromisso é reconhecer e atender as várias necessidades dos jovens que atendemos. É um campo complexo e cheio de divergências”, disse ela ao HuffPost UK.

"Não estarei feliz com a minha vida enquanto meu exterior não refletir meu interior. Não é um capricho. É quem eu sou."

-Joe

Joe não pode passar por cirurgia para reduzir seus seios ou para construir órgãos masculinos antes de ser oficialmente adulto.

Mas ele está mais que decidido a passar pelos procedimentos. “Não estarei feliz com a minha vida enquanto meu exterior não refletir meu interior”, diz ele. “Sei o que a cirurgia envolve e estou pronto para fazê-la quando chegar a hora. Cicatrizes no meu peito são um preço pequeno a pagar por me tornar quem realmente sou.”

“Quanto à cirurgia de baixo, retiram tecido do braço ou da perna para construir as partes masculinas. A cirurgia é feita em três etapas e envolve implantes de pele. Durante um tempo, vou ficar numa cadeira de rodas. Estou disposto a passar por tudo isso, apesar de ser uma coisa enorme.”

“Não é um capricho. É quem eu sou.”


Joe Shatford e sua mãe, Ava Greenall.


"Só quero uma criança feliz, saudável e viva."

-Ava Greenall, Joe's mother

Uma das questões que os serviços de identidade fazem à mãe de Joe é sobre sua reação se ele dissesse: “Na verdade, acho que sou mulher”.

“Se acontecesse, não seria um problema”, diz ela. “Com o alto índice de tentativas de suicídio e automutilação entre os trans, só quero uma criança feliz, saudável e viva.”

“Vou apoiá-lo no que ele decidir – mesmo que as coisas mudem no futuro. Quero que ele seja saudável física e mentalmente, sabendo que fiz o meu melhor para que ele tenha uma infância feliz.”

Eis o conselho de Joe para os jovens que acham que podem ser trans: “Seja você mesmo, à vontade em seu corpo. Espero que os jovens em situação parecida com a minha recebam o mesmo apoio eu tive. Eles devem ter acesso a aconselhamento e a terapia, para descobrirem por si próprios quem realmente são.”

“O fato de ser trans não é motivo de comentários. É uma não-questão. Sou apenas o Joe, e é assim que me tratam.”


Nenhum comentário:

Postar um comentário