sexta-feira, janeiro 03, 2020

POLÍTICA

Longe das ruas, MBL negocia candidatura com três partidos em São Paulo.


O deputado estadual Arthur do Val (DEM-SP)

Um dos grupos que lideraram o movimento pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff, o Movimento Brasil Livre (MBL) está negociando com três legendas para lançar o deputado estadual Arthur do Val, o Mamãe Falei, a prefeito e ainda abrigar seus principais líderes em São Paulo, berço da organização.

Quando decidiu entrar na política, o movimento filiou seus quadros no DEM, partido pelo qual se elegeram Kim Kataguiri deputado federal, Fernando Holiday vereador e Arthur do Val deputado estadual. Em novembro, porém, Arthur do Val foi expulso do DEM após se colocar contra o alinhamento do partido com o prefeito Bruno Covas e o governador João Doria, ambos do PSDB.

Com a decisão, Holiday e outros dirigentes do MBL também decidiram deixar o DEM. O movimento, porém, não contou com a adesão de Kataguiri, que é aliado do presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e vice-líder do partido na Câmara.

Três são as siglas que abriram as portas para a candidatura de Arthur Do Val: Patriotas, Avante e Pros. Por um desses partidos o MBL vai lançar também dois candidatos a vereador: Holiday, que vai disputar a reeleição, e Rubens Nunes, que é advogado do grupo. O coordenador nacional do MBL, Renato Battista, tentará uma vaga na Câmara Municipal, mas pelo Novo. “Há um distanciamento ideológico do MBL com o DEM, que em São Paulo é um partido governista”, disse Rubens Nunes.

Depois de convocar e liderar as manifestações de massa pelo impeachment de Dilma Rousseff em 2015, o MBL se afastou das ruas e se tornou uma corrente política com ambições de se tornar um partido político. O grupo não esteve entre os organizadores das últimas manifestações do ano passado em defesa da prisão após a segunda instância.

Após apoiar a candidatura de Jair Bolsonaro em 2018, o MBL rompeu com o presidente, amenizou o discurso e tenta se apresentar como uma versão moderada da direita. “O MBL amadureceu e hoje está buscando qualificar o debate e tirar a histeria das eleições de 2018”, disse Renato Battista, coordenador do grupo.

O grupo entrou em rota de colisão com o Nas Ruas, outra organização que esteve à frente dos movimentos anti-Dilma e hoje é alinhada ao bolsonarismo e ao Aliança pelo Brasil, partido que o presidente tenta criar. “O Nas Ruas é adesista e puxa-saco do governo”, disse Battista.

Procurado, o Nas Ruas confirmou que tem apoiado as medidas do governo até agora, citou avanços em vários indicadores econômicos e informou que passará a fazer críticas caso avalie necessário. "Nós do Nas Ruas não estamos preocupados com o andar da carruagem dos outros movimentos. A nossa preocupação desde 2011 é combater a corrupção", diz o grupo.

O MBL segue, porém, próximo ao Vem Pra Rua, mas também mantém divergências com o grupo, que é “lavajatista”. “Nós defendemos a operação, mas basta apenas o combate à corrupção."

Para o cientista político Cláudio Couto, professor do Departamento de Gestão Pública da Fundação Getulio Vargas (FGV-EAESP), o MBL está passando por um processo comum no meio político. “Esse processo de ficar menos focado em manifestações e tornar-se uma organização eleitoral é uma tendência clássica de formação de partidos.”

‘Não fomos fiel ao governo, mas às nossas pautas’, diz deputado Vinicius Poit, do Novo.

Deputados do partido Novo na Câmara dos Deputados no dia da posse, em 1º de fevereiro de 2019.

Partido estreou em 2019 na Câmara com bancada de 8 deputados e votou mais de 93% do tempo com o governo, mas se diz independente.

Em sua primeira jornada na Câmara dos Deputados, o Novo, partido que afirma estar na política pela renovação, diz querer empreender em 2020 uma batalha pela aprovação das reformas tributária e administrativa, apesar da agenda legislativa encurtada em ano eleitoral. 

Com oito deputados novatos, a legenda encampou diversas batalhas no Congresso em 2019 e afirma que não vai arrefecer neste ano. 

“O deputado federal está no parlamento para exercer o mandato de deputado federal, não é para ficar se preocupando só com eleição, ou se vai sair candidato a prefeito, ou com apoio da sua base. O Novo vem para trazer uma visão diferente de que o interesse que importa é o do cidadão, não importa se é ano de eleição ou não”, afirmou ao HuffPost o deputado Vinicius Poit (SP) em uma breve conversa por telefone no último dia 24.

A partir de fevereiro, Poit assumirá uma das vagas de vice-líder da legenda na Câmara. Paulo Ganime (RJ) vai substituir Marcel Van Hattem (RS) na cadeira da liderança. 

Ao fazer um balanço do primeiro ano do partido no Congresso Nacional, o deputado Vinicius Poit avaliou como “surpreendente” a estreia do Novo e elencou uma série de exemplos da participação da legenda ao longo do ano.

O Novo foi um dos protagonistas, por exemplo, na discussão da reforma da Previdência, pauta que praticamente dominou a agenda do ano, e votou com o governo Jair Bolsonaro em 93,3% das pautas, de acordo com levantamento da XP Investimentos cedida ao HuffPost.

Segundo o futuro vice-líder do partido na Câmara, contudo, esse movimento não sinaliza apoio ao Palácio do Planalto, mas uma simples questão circunstancial. “Se o governo colocou pautas que a gente concorda, principalmente na questão econômica, a gente vai votar a favor. E essas foram as pautas prioritárias deste primeiro ano. Agora, pautas que a gente não concordar, nós vamos votar contra e vamos bater forte”, disse. 

Poit destacou que os oito deputados da bancada lideram o ranking dos políticos, organizado sem financiamento público e apartidário. “O partido teve atitude coerente com discurso”. 

Eleição municipal também interessa

Fora do parlamento, o Novo também está em movimento. Em sua segunda eleição municipal, o partido abriu processo seletivo para interessados a concorrer pela legenda a cargos de prefeito e vereador e já escolheu nomes em sete locais estratégicos. 

Em São Paulo, embora ainda falte bater o martelo na convenção municipal em 2020, esta etapa é dada como protocolar para Filipe Sabará. No Rio, o Novo deve ir com Fred Luz. Em Recife, com Charbel Maroun. Já há escolhidos para concorrer também em Fortaleza (Geraldo Junior), Natal (Fernando Pinto), São José dos Campos (Agliberto Chagas), e Joinville (Adriano Silva). 

Em 2016, o Novo elegeu quatro vereadores. Em 2018, além dos 8 deputados federais, fez 11 estaduais, um distrital e elegeu Romeu Zema, em Minas Gerais. João Amoedo, presidente do partido, terminou em quinto lugar na disputa presidencial, com 2,5% dos votos válidos.

Veja os principais trechos da conversa de Vinicius Poit com o HuffPost:

Como foi primeiro ano do partido no Congresso? 

Foi surpreendente. Acho que essa é a palavra. A gente tinha grandes expectativas. Eu gosto muito de olhar o lado cheio do copo. Poderia dizer que não conseguimos extinguir o fundo eleitoral, acabar com os privilégios de todos os políticos? Poderia. Mas eu acho que a gente já conseguiu fazer outras coisas, e conquistas super importantes também.

Em relação ao fundo eleitoral a gente não venceu a batalha, mas pelo menos a gente conseguiu diminuir o dano. Poderia ter sido R$ 3,8 bilhões, e caiu para R$ 2 bilhões. Agora vamos pressionar para ver se o presidente Bolsonaro veta. Essa é a toada, de olhar o lado positivo. 

O nosso protagonismo na reforma da Previdência: o Novo conseguiu se comunicar bem, conseguiu ser um dos maiores defensores dessa pauta no Congresso. A nossa participação no PL [projeto de lei] do saneamento básico, que é uma pauta tão importante para o Brasil, com discursos firmes, contundentes, acho que foi super importante.

Nossa participação na mobilidade urbana - eu fui relator de um PL e o Lucas Gonzalez (MG) trabalhou em um outro projeto na Comissão de Viação e Transporte para garantir a liberdade, os empregos de tantas pessoas que trabalham com aplicativos, por exemplo. O governo sempre quer colocar a mão e atrapalhar. A gente lutou pela liberdade, lutou pelas oportunidades desses brasileiros que estão trabalhando duro por aí. 

No “agro”, também tivemos participação importante e lutamos por mais conectividade. Tive uma relatoria importante em que gente pegou um dinheiro parado há mais de 10 anos, R$ 21 bilhões, que poderia ser utilizado para orelhão basicamente, uma coisa “super moderna”. Então a gente mudou a legislação para poder construir conectividade em escolas públicas, em unidades isoladas, conectividade rural, para melhorar ainda mais o nosso “agro” e de quem hoje não é atendido pela telecomunicação no Brasil. 

Acho que o ano que vem [2020] vai ser melhor ainda. A gente já teve um papel importante na reforma tributária e vai dar duro nela no ano que vem. Reforma administrativa vai ser uma pauta que vamos trabalhar muito no ano que vem também.

E duas pautas para serem aprovadas em 2020 também e que a gente teve um papel importante neste ano, é o PL do governo digital e o Marco de Startups, que está na comissão especial e vai ser uma das pautas mais importantes do primeiro semestre. Vamos criar condições para melhorar o ambiente empreendedor, melhorar a oportunidade de montar empresas no Brasil. Acho que ali está a oportunidade de acabar com o desemprego. Os 12 milhões de desempregados não vão ser resolvidos pelos grandões. Mais de 50% das vagas de emprego quem gera são pequenos e médios [empresários]. Então tem que melhorar o ambiente empreendedor para desenvolver essa parte. 

Como vocês conciliam o discurso de “novo” com a interlocução necessária no Congresso com a Presidência da Câmara? Há esse diálogo? Como ele acontece?

Eu sou um eterno defensor do diálogo e da construção de pontes. Fiz um planejamento do meu mandato no início do ano, fiz uma revisão agora, do que a gente bateu de metas e quais são as metas do ano que vem. E isso é importante, porque quando a gente tem certeza dos nossos princípios e dos nossos valores, quando isso está bem claro, você pode entrar numa batalha e estabelecer diálogo com os demais, porque você sabe quem eles são e você sabe do que você não abre mão. Agora, não dá pra simplesmente você entrar lá sem se planejar e querer ganhar tudo. Então, escolhendo as batalhas mais importantes, a gente tem que entender o que dá para conversar com os demais parlamentares.

A arte da política não está em falar só com quem concorda com você. Está em falar com quem discorda de você. E aí esse que discorda vai contar um pouco como um grão de feijão. Talvez a gente discorde em mil pontos, mas se, em um a gente concordar, vamos tentar pegar esse fio da meada porque o brasileiro, a pauta de saneamento básico, de educação, de trânsito, de saúde, independe de partido, é tudo a mesma coisa.

Essa construção de diálogo, de saber exatamente quais são os nossos princípios e valores, e saber quais são as batalhas que a gente luta e precisa ganhar, permite que você navegue na Câmara dos Deputados e estabeleça a conversa importante. E isso envolve, logicamente, o presidente da Câmara [Rodrigo Maia (DEM)], com que a gente tem um diálogo razoável. Temos alguns pontos de discordância, mas temos alguns pontos em que ele concorda, a ponto de dar esse espaço para o Novo. 

Depois do PSL, o Novo foi o partido que mais votou favorável à agenda do governo Bolsonaro. Por que tão fiel às pautas governistas? 

Não é questão de ser fiel às pautas governistas. O Novo é bem independente, tem essa postura e a gente foi fiel à nossa pauta. Se o governo colocou pautas que a gente concorda, principalmente na questão econômica, a gente vai votar a favor. E essas foram as pautas prioritárias deste primeiro ano.

Agora, pautas que a gente não concordar, nós vamos votar contra e vamos bater forte. Acho que fomos críticos contumazes, por exemplo, da questão do fundão. Quando o governo mandou no Orçamento já uma previsão de fundão eleitoral, o Novo apontou um erro: o governo mandou com uma previsão de gastar R$ 2,5 bilhões e tinha um erro de conta lá. Caiu para R$ 1,7 bilhão, R$ 1,8bilhão na CMO [Comissão Mista de Orçamento]. Na CMO ficou nesta média e depois voltou para R$ 2 bi. Mas quando o governo mandou errado, a gente bateu duro.

A gente continua forte na posição de que o governo tem que vetar. Não é para ter fundo eleitoral. Isso mostra que a gente vota com os nossos princípios e valores, e neste primeiro ano houve muitas pautas econômicas que a gente foi a favor sim, mas não porque a gente é a favor do governo, porque a gente é a favor na pauta. Aliás, eu acho que a política deveria ser mais assim. Não esse negócio de base e oposição puramente por apoio. A gente tinha que se apegar à pauta, ao interesse do cidadão. 

Você está falando em mudança na política… O que achou deste primeiro ano do governo Bolsonaro que começou diferente, por exemplo, escolhendo ministérios sem o critério da distribuição por partidos?

Enfrentou muitos desafios, porque está fazendo o que não era feito antes. Naturalmente vai enfrentar resistência. Ministérios da Economia, da Justiça, da Infraestrutura são os três que estão indo bem. Concordo com a maioria dos posicionamentos. Alguns ministérios, como o da Educação, têm enfrentado muitos desafios, né? Está com o segundo ministro e correndo conversas de que pode inclusive ser trocado novamente o Ministério da Educação. Acho que quando você enfrenta a máquina e quer mudar, essa mudança tem dor também. Mas eu admiro a coragem deste governo de colocar pessoas técnicas e, se não acertar, ter coragem de mudar. Já mudou o ministro da Educação uma vez, se precisar mudar, muda de novo. 

Acho que está indo bem. Eu gosto de números, indicadores. Quando você vê a Bolsa de Valores na máxima histórica, desemprego caindo, inflação super baixa, juros no mínimo dos últimos anos. Não tem o que dizer. Contra fatos, não há argumentos. Tem muito o que melhorar. A agenda social precisa avançar. Tem muita gente desempregada. Tem muita gente passando muita necessidade no Brasil. Está longe da fase boa. A gente está melhorando, saindo de uma crise muito severa e melhorando. Vamos olhar para o lado positivo e comemorar pequenas vitórias, mas continuar trabalhando duro, porque está longe do ideal. 

O ano que vem é mais um ano no qual o governo vai apostar em reformas. Como vê isso num ano eleitoral? 

São prioritárias. O Congresso já tem consciência das reformas tributária e administrativa, elas têm que passar. São as duas que vamos trabalhar desde cedo para concluir antes das eleições, que a gente sabe que outros interesses que não são os técnicos entram em pauta lá [no Congresso]. O Novo vem para trazer uma visão diferente de que o interesse que importa é o do cidadão, não importa se é ano de eleição ou não. O deputado federal está lá para exercer o mandato de deputado federal, não é para ficar se preocupando só com eleição, ou se vai sair candidato a prefeito, ou com apoio a sua base. A gente está lá para fazer diferente. Então o Novo vai manter o trabalho a todo vapor e priorizar pautas que estão no Congresso e são prioritárias para o cidadão brasileiro como essas duas, as reformas administrativa e tributária. 

Já dá pra falar que existe uma bancada liberal na Câmara dos Deputados? 

Já sim. Tem outros deputados, além do Novo, como o Kim Kataguiri (DEM-SP), Paulo Eduardo Martins (PSC-PR), Luiz Philippe de Orleans e Bragança (PSL-SP). Tem outros deputados que estão sempre perto da gente, e outros, uns 30, 40 - vamos arredondar para 10% do Congresso - que dá sim para falar em uma bancada liberal. E isso vai aumentar, uma vez que a gente defende a liberdade do cidadão, a descentralização do poder de Brasília, a devolução do poder para o indivíduo. 

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