sexta-feira, fevereiro 14, 2020

POLÍTICA

Moro e deputado trocam ofensas e audiência termina em bate-boca; veja



A audiência pública da comissão especial sobre a PEC 199/2019, proposta de emenda à Constituição que regulamenta a prisão após condenação em segunda instância, teve de ser suspensa devido a um bate-boca que envolveu o ministro da Justiça, Sergio Moro, e os parlamentares Glauber Braga (PSol-RJ) e Delegado Éder Mauro (PSD-PA).

O presidente da comissão, Marcelo Ramos (PL-AM), tentou apaziguar os ânimos, mas acabou suspendendo os trabalhos após a discussão virar gritos e Mauro, que é governista, chegar a partir para cima de Braga, da oposição (veja vídeo abaixo).



"Capanga" x "desqualificado"

O debate em torno da PEC começou às 10h e já durava quatro horas. A oposição aproveitou o tempo para inquirir Moro sobre outros temas. O ministro se mostrou solícito na maior parte das vezes, mas, por mais de uma vez, se recusou a responder alguns questionamentos.

Um dos últimos inscritos para falar, Glauber Braga tomou a palavra e disparou contra Moro. "É lobo em pele de cordeiro. O senhor Sergio foi muito bem treinado. Nas relações com o Projeto Ponte, nas vistas aos Estados unidos. Nas visitas que fez ao Departamento de Estado (norte-americano). Mas o senhor é um capanga da milícia, do Bolsonaro", disse.

Nesse momento, alguns parlamentares protestaram. O presidente da comissão disse, então, que não se opôs aos elogios feitos ao ministro, mesmo quando fugiam ao tema principal da discussão, e que, portanto, não censuraria as críticas. Ainda assim, pediu a Braga que tomasse mais cuidado e evitasse os "adjetivos". "Todas as críticas têm sido aceitas. Mas peço que evitemos um acirramentos ao fim da audiência. Não reprovo suas críticas. Mas peço que não use adjetivos como 'capanga'", disse o presidente.

Os ânimos não se acalmaram quando Braga retomou a palavra. “O senhor Sérgio se apresenta de maneira polida, mas mente descaradamente. Toda vez que questionado sobre o caso do Flávio (Bolsonaro), ele diz que é responsabilidade da polícia, da Justiça, do Ministério Público do Rio de Janeiro. Mas saiu um relatório da PF isentando Flávio de crimes no Rio. Me desculpe se não posso usar de polidez. Ele diz que a PF não tem nada a ver com o que ocorre no Rio, mas a primeira coisa que fez foi mandar a polícia para pressionar o porteiro em seu depoimento no condomínio do presidente da República. Essa atuação, de quem finge ser uma coisa, mas é outra, é atuação de lobo em pele de cordeiro. Está no exercício do MJ, blindando corruptos", voltou a atacar.

Após ouvir, Moro respondeu: "O senhor não tem fatos, argumentos. É um desqualificado", disse. Governistas aplaudiram, e Ramos pediu que ele também evitasse termos ofensivos. Moro pediu desculpas e continuou. "Peço desculpas. Sigo sua orientação. Vim para esta Casa falar sobre a PEC. Sempre tratei a todos com extremo respeito e gentileza, mesmo quando fui ofendido", disse.

Ânimos exaltados

Nesse momento, porém, os próprios governistas já não permitiam mais a continuidade da sessão ou a fala do ministro. Ramos voltou a intervir, dessa vez, chamando a atenção dos colegas. Moro continuou, mas Braga passou a chamá-lo de "mentiroso".

Foi nessa hora que Delegado Éder Mauro passou a se manifestar e os dois parlamentares trocaram ofensas cada vez mais exaltados, até que Mauro partiu para cima de Braga. Os dois foram separados por colegas e Ramos suspendeu a sessão, enquanto Moro observava a cena. O ministro saiu sem falar com a imprensa.

Frente de oposição a Bolsonaro organiza ato contra Weintraub.



Criado com objetivo de ser uma frente suprapartidária de oposição ao governo Jair Bolsonaro (sem partido), o movimento “Direitos Já, Fórum da Democracia” instalou ontem um conselho político com representantes de 14 partidos. O coletivo, que é coordenado pelo sociólogo Fernando Guimarães, vai elaborar manifestos e promover atos de protesto contra ações do Palácio Planalto que, segundo eles, atentem contra a “democracia e os direitos fundamentais”.

O primeiro grande evento do ano foi marcado para o dia 30 de março, véspera do aniversário do golpe militar de 1964, em São Luís do Maranhão. O tema será a educação e o principal alvo, o ministro Abrahan Weintraub, titular da pasta. Chefe do executivo do estado, Flávio Dino (PCdoB) é o governador que faz a oposição mais dura a Bolsonaro. Ele é apontado entre líderes da esquerda como presidenciável em 2022 ou vice em uma chapa liderada pelo PT.

O “Direitos Já” também é visto por seus integrantes como um laboratório que visa buscar convergências para a formação de uma frente ampla anti-Bolsonaro nas próximas eleições presidenciais. A reunião de ontem teve um caráter “ecumênico” e reuniu antigos adversários políticos.

Estavam presentes, entre outros, o deputado federal Vinícius Poit (Novo-SP), o senador Armando Monteiro (PTB-PE), o deputado federal Raul Henry (MDB-PE), a vereadora Soninha Francine (Cidadania-SP), o presidente nacional do PV, José Luiz Penna (SP) e o ex-presidenciável da sigla, Eduardo Jorge (SP), o porta-voz nacional da Rede Sustentabilidade, Pedro Ivo (DF), o ex-senador José Aníbal (PSDB), o vereador Eduardo Suplicy (PT) e o ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung (sem partido).

Na reunião de lançamento do movimento, em maio do ano passado, Guimarães reuniu cerca de 40 convidados. Entre eles estavam o ex-ministro Aloizio Mercadante, o ex-prefeito Fernando Haddad e o ex-ministro da Justiça José Gregori (PSDB). A ex-prefeita Marta Suplicy (sem partido) se uniu mais tarde ao “Direitos Já” para, segundo ela, formar uma frente ampla de centro esquerda contra Bolsonaro.

'Em que Brasil você vive?': empregadas domésticas e parentes que nunca saíram do Brasil reagem a fala de Guedes


A cotação do dólar bateu novo recorde na quarta-feira e chegou a R$ 4,35. Para ilustrar como a alta poderia ser positiva para o Brasil, o ministro da Economia, Paulo Guedes, citou um suposto fluxo de empregadas domésticas indo à Disney em tempos de dólar baixo, o que classificou como "uma festa danada".

"Não tem negócio de câmbio a R$ 1,80. Vou exportar menos, substituição de importações, turismo, todo mundo indo para a Disneylândia. Empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada. Mas espera aí? Espera aí. Vai passear ali em Foz do Iguaçu, vai ali passear nas praias do Nordeste, está cheio de praia bonita. Vai para Cachoeiro do Itapemirim, vai conhecer onde o Roberto Carlos nasceu. Vai passear no Brasil, vai conhecer o Brasil, que está cheio de coisa bonita para ver", disse Guedes em um seminário em Brasília.

Ao antecipar as críticas que receberia pelo comentário, o ministro tentou se corrigir, afirmando que quis dizer "que o câmbio estava tão barato que todo mundo estava indo para a Disneylândia, até as classes sociais mais baixas". Ele continuou a emenda, dizendo que "todo mundo quer ir para a Disneylândia", mas não "três, quatro vezes ao ano".

Não foi suficiente. Nas redes sociais, empregadas domésticas— e principalmente seus filhos e filhas, mais jovens — criticaram o tom da fala apontando para um viés classista e questionando o quão realista seria a constatação do ministro.

A primeira década do século 21 foi marcada por uma expansão da classe média no Brasil. Segundo o Ipea, o número de mulheres empregadas no comércio se aproximou pela primeira vez na história do número de empregadas domésticas no Brasil em 2007. Este fluxo de trabalhadores domésticos para outros ofícios ilustra o crescimento da classe C - que, segundo dados levantados pelo grupo BNP Paribas em conjunto com a Ipsos Public Affairs, cresceu de 62,7 para 103 milhões de pessoas, entre 2005 e 2011.

Mas os profissionais que continuaram ganhando até um salário mínimo, caso dos trabalhadores domésticos, ficaram de fora.

Este grupo, segundo economistas, não foi beneficiado pelo "boom" da nova Classe C no mercado turístico brasileiro, quando milhares de pessoas viajaram de avião pela primeira vez — principalmente para destinos dentro do Brasil.

Pelo Twitter, brasileiros lembraram que, por um lado, qualquer categoria profissional deveria ter o direito de viajar para onde for e, por outro, o quão difícil é para um empregado ou empregada doméstica conseguir juntar dinheiro para uma viagem internacional.

"Em que Brasil você vive?", perguntou a filha de uma empregada doméstica.

"Quero saber que época era essa que ele está falando", questionou outra.

Críticas 'à direita'


"Pergunta ao Paulo Guedes", costuma dizer Bolsonaro quando questionado sobre políticas econômicas do governo

O piso salarial federal para empregados domésticos é R$ 1.045, mas o valor pode variar de acordo com as leis locais de cada Estado.

As críticas não se limitaram a brasileiros próximos a profissionais domésticos e incluíram pessoas que se apresentam como liberais, de direita, e apoiadores das políticas do ministro — tido como o principal nome, junto a Sergio Moro (Justiça e Segurança Pública), do gabinete ministerial de Bolsonaro.

"Sou 100% de direita, mas só tenho uma coisa a dizer. Cala a Boca, Guedes. Todos deveriam poder viajar, seja para Natal, Disney, Europa (...) Todos têm o mesmo direito, seja o empresário ou a empregada, que diga-se de passagem é uma profissão digníssima", afirmou um usuário do Twitter.


 'Todos deveriam poder viajar', diz seguidor que se classifica como '100% de direita'

"Sou fã desse cara, mas qual o problema de uma empregada doméstica, um carteiro, um policial, um professor ir à Disney? Nenhum", disse outro.

O economista e investidor Paulo Guedes foi o principal trunfo do candidato Jair Bolsonaro (PSL) no front econômico durante a campanha eleitoral.

Seu discurso em defesa do Estado mínimo e da abertura do mercado para o comércio internacional ajudou a atrair o apoio de parcela do empresariado e de investidores. Apelidado por Bolsonaro de "Posto Ipiranga" em matéria de política econômica — em alusão ao slogan publicitário "Pergunta lá no Posto Ipiranga", da rede de postos de abastecimento —, ele é frequentemente citado pelo presidente em entrevistas.

"Pergunta ao Paulo Guedes", disse Bolsonaro em viagens internacionais à China, Arábia Saudita e Índia, sempre que questionado sobre políticas econômicas do governo.

Carioca, nascido em 24 de agosto de 1949 numa família de classe média baixa, Guedes se formou no início dos anos 1970 pela Faculdade de Ciências Econômicas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), depois se tornou mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-Rio) e doutor pela Universidade de Chicago, nos Estados Unidos.

'Minha mãe nunca foi à Disney'

A maioria das reações às falas de Guedes vindas de parentes de profissionais domésticos apontou que uma viagem à Disney não é algo presente no cotidiano de quem ganha um salário mínimo.

"Minha mãe foi empregada doméstica por 40 anos e nunca foi à Disney", disse uma jovem no Twitter.

Outros fizeram coro.

"Minha mãe é empregada há 20 anos e eu nunca fui à Disney, nem ela. Quero saber que época era essa que ele está falando", perguntou outra.

Houve quem lembrasse dos desafios da classe em busca de direitos trabalhistas.



"Minha mãe é empregada doméstica e ainda não teve essa benfeitoria em sua vida. Pelo contrário. Está lutando para receber o décimo terceiro até hoje, porque (a) lei não garante direito. Paulo Guedes, porque não experimentar capinar um pátio.

Outros usuários destacaram a importância do turismo nacional, como pediu Guedes, mas lembraram que todos têm o direito de viajarem para onde quiserem.

"Eu sou a favor do brasileiro conhecer seu próprio país. Até porque temos lugares maravilhosos. Mas ele citou a empregada doméstica como se ela não tivesse o direito de viajar para onde ela quiser", reagiu um.

"Me senti pessoalmente ofendida, minha mãe foi empregada doméstica a vida toda. E teria direito de fazer com o dinheiro dela o que quisesse, até ir para a Disney", disse outro.




Guedes: com dólar baixo, até empregada foi à Disney


Paulo Guedes disse que com o dólar baixo 'até empregada doméstica estava indo para Disney'


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