sexta-feira, março 20, 2020

DIREITOS

Embaixada da China rebate insinuações de Eduardo Bolsonaro: ‘Contraiu vírus mental’.



Presidente da Câmara, Rodrigo Maia, foi ao Twitter mediar "crise internacional".

Em meio a crise de coronavírus no País, o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, usou o seu perfil no Twitter para mediar uma crise internacional.

Nesta quinta-feira (19), Maia pediu desculpas ao embaixador da China, e a toda a nação, por uma declaração feita pelo deputado Eduardo Bolsonaro na última quarta (18).

O deputado responsabilizou o país chinês pela disseminação do novo coronavírus no mundo, e Maia se desculpou pelas “palavras irrefletidas” do filho do presidente Jair Bolsonaro.

Eduardo Bolsonaro comparou o comportamento do governo chinês ao do partido soviético durante a crise do acidente nuclear de Tchernóbil, na Ucrânia.

Em 1986, a antiga União Soviética escondeu e manipulou informações para a população e para o mundo sobre a gravidade do vazamento de um reator da usina.

O acidente dizimou milhares de vidas e foi retomado em uma produção da HBO, a série Chernobyl, em 2019.

Tanto o embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, quanto a própria embaixada da China fizeram uso da mesma rede social para responder o deputado.

“Não deixam de ser uma imitação dos seus queridos amigos. Ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos”, publicou o perfil da embaixada. 

“As suas palavras são um insulto maléfico contra a China e o povo chinês”, completou o embaixador.

Além de Eduardo Bolsonaro, o embaixador indicou os perfis do ministro de relações exteriores, Ernesto Araújo, do presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, e o perfil institucional da própria Câmara em sua mensagem. 

Na manhã desta quinta, Yang, ainda, postou que havia recebido um “telefonema de ameaça”. A mensagem, que não citava Eduardo Bolsonaro, foi apagada posteriormente, de acordo com a Folha.

Os primeiros casos de contaminação do novo coronavírus foram registrados em Wuhan, na China, no final do ano passado. Nos últimos meses, o país se tornou o primeiro epicentro de disseminação da pandemia. Hoje, o país anunciou ter conseguido zerar, pela primeira vez, a transmissão local do vírus. 

Como é a transmissão do coronavírus

O coronavírus, como outros vírus responsáveis por sintomas de gripe, é transmitido pelo ar ou por contato pessoal a partir das secreções contaminadas. É possível pegar por meio de tosse, catarro, saliva, toque ou aperto de mão e contato com superfícies e objetos contaminados.

O seu período de incubação, ou seja, o tempo entre o contágio e o aparecimento dos sintomas é de um a 14 dias, mas o os pacientes infectados costumam apresentar sintomas em até 5 dias.

E, apesar da alta capacidade de disseminação do novo coronavírus, em cerca de 80% dos casos de contaminação, os sintomas aparecem de forma leve. Menos de 5% dos casos evoluem para um quadro grave. A principal preocupação é com idosos e pessoas com doenças crônicas. Em infectados com menos de 50 anos, a taxa de mortalidade é de menos de 1%.

Devo fazer um exame para ver se estou com coronavírus? 

De acordo com a recomendação do Ministério da Saúde, atualmente, apenas pessoas que manifestam sintomas respiratórios graves devem ser submetidas ao teste para não sobrecarregar o sistema de saúde.

Para os pacientes que apresentam manifestações clínicas mais brandas, basta o exame médico e a recomendação de tratamento de acordo com as diretrizes do profissional. 

Já para os assintomáticos, não há recomendação de teste e nem de tratamento.

Em casos eventuais de visita a países com alto índice de contágio, o médico poderá solicitar ou não o teste para o coronavírus. Já em caso de contato com pessoas infectadas, o direcionamento é observar se vai existir a manifestação de sintomas ou não.

Ofendido com resposta chinesa ao filho, Bolsonaro quer retratação.


Presidente chinês, Xi Jinping, esteve em Brasília em novembro do ano passado para os BRICS. 

Após Eduardo Bolsonaro culpar a China pela pandemia de coronavírus, governo teme retaliações em âmbito comercial e em negociações para auxílio no combate à covid-19.

Integrantes do governo brasileiro estão preocupados com o efeito das acusações do deputado Eduardo Bolsonaro contra a China sobre a pandemia de coronavírus. Ninguém sabe ao certo o que esperar após as respostas contundentes do embaixador chinês no Brasil, Yang Wanming, que exigiu retratação e disse que as declarações do filho 03 “vão ferir a relação amistosa China-Brasil”.

Segundo o HuffPost Brasil apurou com fontes do governo, o principal temor é de retaliações no nível econômico. A China é o país com o qual o Brasil tem mais superávit comercial.

Mas há ainda o receio de suspensão da ajuda que estava em negociação no âmbito sanitário, relacionada ao coronavírus, pelo ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. 

Eduardo retuitou, na noite de quarta, uma postagem que dizia que “a culpa pela pandemia de Coronavírus no mundo tem nome e sobrenome. É do Partido Comunista Chinês”. O deputado federal e filho do presidente ainda acrescentou: “Quem assistiu Chernobyl vai entender o q ocorreu. Substitua a usina nuclear pelo coronavírus e a ditadura soviética pela chinesa. +1 vez uma ditadura preferiu esconder algo grave a expor tendo desgaste, mas q salvaria inúmeras vidas. A culpa é da China e liberdade seria a solução”.

O perfil da Embaixada da China no Brasil, por sua vez, respondeu que Eduardo, “ao voltar de Miami, contraiu, infelizmente, vírus mental, que está infectando a amizades entre os nossos povos”.

A postagem de Eduardo acabou virando uma crise de proporção tamanha que o ministro de Relações Exteriores, Ernesto Araújo, foi acionado nesta quinta (19).

O presidente Jair Bolsonaro sentiu-se ofendido porque a Embaixada da China no Brasil retuitou não só as respostas do diplomata chinês a Eduardo, como também algumas repercussões dela na rede social, todas de opositores ao governo, como da cineasta Petra Costa. 

Contrariado, o mandatário exigiu uma reparação. Ernesto então procurou Yang Wanming para transmitir o descontentamento brasileiro e, em seguida, emitiu uma nota na qual afirma que houve “ofensa” ao chefe de Estado do Brasil e que as postagens de Eduardo “não refletem a posição do governo brasileiro”. 

“Cabe lembrar, entretanto, que em nenhum momento ele [Eduardo] ofendeu o Chefe de Estado chinês”, escreveu Araújo. “A reação do Embaixador foi, assim, desproporcional e feriu a boa prática diplomática”, destaca o texto do chanceler. 

“Temos expectativa de uma retratação por sua repostagem ofensiva ao Chefe de Estado”, diz Araújo.

Pouco depois foi a vez de Eduardo Bolsonaro também emitir uma nota em suas redes sociais para amenizar o princípio de uma crise diplomática provocada por ele mesmo. 

Segundo escreveu, sua “intenção, mais uma vez, nunca foi a de ofender o povo chinês ou de ferir o bom relacionamento existente entre os nossos países”. 

“Não creio que um tweet isolado de um parlamentar levantando questionamentos sobre a conduta de um governo estrangeiro tenha condão para tanto”, acrescentou”

“Não desejamos problemas com a China e certamente, o país asiático também não busca conflitos com o Brasil.”

A Embaixada da China, longe de responder diretamente o governo mencionando o ocorrido, repostou um vídeo do ministro Mandetta de fevereiro, em que ele fala sobre a importância de não tratar chineses com preconceito na questão do coronavírus. 

À Folha de S.Paulo, o vice-presidente Hamilton Mourão ressaltou que a opinião de Eduardo Bolsonaro não reflete o pensamento do governo. 

“O Eduardo Bolsonaro é um deputado. Se o sobrenome dele fosse Eduardo Bananinha não era problema nenhum. Só por causa do sobrenome. Ele não representa o governo”, disse à Folha. “Não é a opinião do governo. Ele tem algum cargo no governo?”

As insinuações feitas por Eduardo, contudo, fazem parte da rotina de conversas do clã bolsonarista desde o surgimento das primeiras notícias sobre o vírus e se intensificaram nas últimas semanas. 

Meses após o retorno da viagem, porém, não é uma postura pragmática que se vê no núcleo mais próximo ao presidente Jair Bolsonaro. Segundo amigos, em trocas de mensagens do próprio presidente, ele tem endossado as teorias que o filho esboçou nas redes sociais. 

Para os chineses, esse tipo de insinuação não só é desrespeitosa - e foi esse o tom dado pelo embaixador Yang Wanming -, como vai na contramão do que os quadros técnicos do governo vem afirmando. O próprio ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, já havia desautorizado culpar qualquer país pela pandemia. 

Medo de retaliações

Nos bastidores, a diplomacia brasileira está temerosa e impressionada com o tom dado, tanto na nota do chanceler brasileiro, quanto pelo “rompante” de “irresponsabilidade” do filho do presidente. 

Avaliações destacam que embates deste tipo, com Eduardo - que não bastasse ser filho do mandatário, é o presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara - desgastam muito a relação e “que a China já teve muita paciência”.

Do lado da saúde, vinha sendo negociado pelo ministro Mandetta o envio de equipamentos hospitalares utilizados no tratamento da covid-19 em estágio avançado, como máscaras e respiradores. A China é um dos poucos países que têm se oferecido no auxílio aos demais. Semana passada, Pequim enviou uma equipe médica à Itália, onde o número de mortos passa de 3,4 mil. 

Sobre questões econômicas, teme-se embargo a produtos brasileiros. A China é atualmente o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2019, o país asiático importou US$ 63,35 bilhões em produtos brasileiros. Em outubro, Jair Bolsonaro esteve por lá numa tentativa de demonstrar que o discurso ideológico da campanha, quando disse que a China estava “comprando o Brasil” havia ficado de lado, e que prevaleceu o pragmatismo. 

Na ocasião, acordou-se investimentos chineses no Brasil. A ministra da Agricultura, Teresa Cristina, que acompanhou Bolsonaro na ocasião, acertou também vários negócios com o país. De acordo com interlocutores do Planalto, estavam em andamento conversas para exportação de excedentes agrícolas.

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