terça-feira, março 24, 2020

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LOTAÇÃO A quantidade de leitos de UTI existentes não é suficiente: os infectados pela Covid-19 não podem ficar nos corredores



SUS corre risco de colapso

O Sistema Único de Saúde (SUS) e a rede de saúde complementar passarão por um teste decisivo nos próximos meses. O crescimento do número de casos confirmados de Covid-19 pressionará a estrutura de atendimento existente e vai repercutir principalmente no uso de leitos de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Especialistas advertem que o avanço da infecção e o aumento de casos graves podem causar um colapso no sistema por falta de leitos.

O SUS padece, dia após dia, de problemas específicos no atendimento, na gestão de equipamentos e de pessoal e, mais recentemente, de problemas orçamentários: o aporte financeiro do Ministério da Saúde previsto para 2020 é de R$ 136 bilhões, menor do que no ano passado, que foi de 147 bilhões. Agora, a demanda causada pelo coronavírus, vai se somar aos problemas existentes porque as pessoas continuarão tendo outras doenças.

“Essa batalha vai exigir esforços e sacrifícios da população e do governo”, José Luiz de Andrade Neto, médico e professor titular da Medicina da PUC do Paraná

O momento mais difícil da Covid-19 é quando ela causa debilidade respiratória grave, chamada de hipoxemia, que exige o uso de respiradores artificiais no paciente. É como se o pulmão estivesse plastificado. Há necessidade de internação e isolamento respiratório porque o principal mecanismo de transmissão acontece por gotículas e é significativo o risco de contaminação de outros pacientes e dos profissionais de saúde. É algo que requer adequação da capacidade física dos locais de atendimento, além de eficiência na gestão de leitos de UTI existentes. Adiar cirurgias não emergenciais é fundamental para liberar espaço para doentes da Covid-19.

O País dispõe de cerca de 55 mil leitos de UTI, metade do SUS e metade da saúde complementar. O problema é que apenas 25% da população tem acesso à saúde suplementar, que fica com a metade dos leitos. Os outros 75% dos pacientes, que utilizam o SUS, ficam com a outra metade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o Ministério da Saúde indicam que deve haver de um a três leitos para cada dez mil habitantes.

Considerando todos os leitos de UTI do Brasil, há mais ou menos dois leitos para cada dez mil habitantes. Embora, em situação de normalidade o país esteja dentro da recomendação da OMS, a estrutura disponível não está dimensionada para suportar os efeitos de uma pandemia. Em São Paulo, o governo já anunciou a instalação de 1,4 mil leitos adicionais e outros estados também estão reforçando sua estrutura de atendimento. Mesmo assim, há o forte temor de que faltem camas de UTI. As regiões Norte e Nordeste podem ficar desassistidas. A taxa de ocupação média nas UTIs privadas é de cerca de 80%. Já nos hospitais públicos, essa taxa é de impressionantes 95%, segundo a Associação Medicina Intensiva Brasileira (AMIB).



O médico intensivista Wilson Oliveira, membro da diretoria da AMIB, diz que serão necessários pelo menos mais dois mil leitos de UTI para suprir a necessidade imposta pelo coronavírus. O Ministério da Saúde afirma, em nota, que já autorizou o envio de 200 dos 540 leitos de UTI volantes de rápida instalação. Serão destinadas 80 unidades para São Paulo, 40 no Rio de Janeiro, 30 no Rio Grande do Sul e 50 em Minas Gerais. Esse reforço na rede hospitalar do SUS prevê um gasto de R$ 396 milhões. “Algo como 80 % dos casos são leves, 20% necessitam de internação e destes, 15% de UTI, pois precisam de suporte de aparelhos de ventilação artificial”, disse Oliveira.

Um cenário pessimista

Pelo cenário mais otimista projetado pelo governo, a crise pandêmica da Covid-19 pode contaminar 460 mil pessoas só no estado de São Paulo, 1% da população. Na hipótese mais pessimista, porém, o número de infectados pode chegar a 4,6 milhões de pessoas, 10% da população. Nesse caso, 690 mil pessoas precisarão de leitos de UTI. Em qualquer situação, todo o sistema será colocado à prova, assim como a capacidade de gestão em saúde nas três esferas de governo. No cotidiano, a população tem que fazer sua parte e seguir os protocolos de higienização, locomoção e contato.

Para o médico infectologista José Luiz de Andrade Neto, professor titular da Escola de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, os hospitais precisarão trabalhar duro para não oferecer um ambiente favorável para a disseminação infecciosa, adequar seus espaços de atendimento das pessoas infectadas e controlar seus ambulatórios, locais que oferecem o primeiro atendimento antes da internação hospitalar. “A situação é difícil e requer sacrifício da população”, diz.

Ao comparar a Covid-19 com outras enfermidades, como gripes e pneumonias, que matam por ano 80 mil pessoas (só o vírus Influenza causa uma média de 500 mortes anuais), o infectologista diz que o novo coronavírus tem capacidade maior e mais rápida de expansão.

Segundo ele, o período mais crítico da pandemia deve durar de três a quatro meses. “O coronavírus se espalha mais rápido que a H1N1”, diz. Os problemas atuais relacionados à pandemia do coronavírus, somados às deficiências pontuais e históricas do SUS, vão empurrar o sistema de saúde brasileiro para o maior teste de sua história e torná-lo ainda mais importante para garantir o bem-estar da população. O que não pode faltar são leitos UTI para atender os doentes e salvar vidas.

Curva de crescimento do coronavírus no Brasil repete a de países europeus, alertam especialistas da Itália.


Cristo Redentor, no Rio de Janeiro, recebe projeção em homenagem a vítimas da covid-19

A velocidade de propagação do novo coronavírus no Brasil repete o padrão dos países que mais sofrem com o avanço da covid-19, demonstram gráficos produzidos pela BBC News Brasil com os dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). O crescimento de casos confirmados segue um ritmo parecido com o de países como Alemanha, França e Reino Unido.

A pedido da reportagem, um analista de dados e um médico que acompanham o avanço do coronavírus na Itália analisaram o gráfico.

"Na Itália, estamos assistindo a um filme idêntico ao que vimos na China, e a batalha será a mesma em todos os outros países do mundo, mas com dias ou semanas de atraso", afirma Nino Cartabellotta, médico e presidente da Fundação Gimbe, organização não governamental que promove a difusão de informações científicas confiáveis para a realização de políticas públicas.

"O Brasil tem a chance de jogar sabendo o resultado da outra partida, porque já viu o filme italiano. Comparar a curva de diferentes países não é um problema, muito pelo contrário", diz Cartabellotta.

Para Lorenzo Pregliasco, sócio-fundador da empresa de pesquisas Quorum, o Brasil "está alinhado com a maior parte dos países observados", apesar de seguir "um pouco atrás" na curva de crescimento: "Particularmente, me parece que o ritmo de contágio possa seguir a trajetória da França."

Em apenas 10 dias, a França saltou de 50 casos para mais de mil. Depois disso, mandou seus 67 milhões de habitantes ficarem em casa, a não ser em caso de deslocamentos essenciais.

Comparar o avanço epidemiológico em países diferentes, no entanto, não é uma conta exata, explica Pregliasco. Até agora, cada nação tomou medidas diferentes de contenção da covid-19. Além disso, a origem dos focos iniciais de cada nação pode interferir nos cálculos: "Na Itália, a disseminação precoce e muito rápida dos contágios provavelmente ocorreu por causa da contaminação inicial em hospitais. Então, dependendo de quantos e quais são os focos, a tendência de cada país pode ser muito diferente."

O que significam os gráficos?

Para facilitar a visualização dos dados e a comparação, os gráficos consideram o número de casos reportados pelos sistemas de saúde de cada governo depois que estes países ultrapassaram a barreira de 50 testes positivos.

O "dia 1" da Itália, por exemplo, é 23 de fevereiro. O dos Estados Unidos, dia 25. A linha do Brasil, por sua vez, começa em 12 de março.


Com essa metodologia, é possível entender as comparações de estatísticos que dizem que um país está alguns dias ou semanas atrás de outro "na curva de crescimento" do novo coronavírus.

Para manter a comparação com dados de uma fonte única, foram utilizados os boletins oficiais diários da OMS. Os dados mais recentes da organização correspondem às informações enviadas pelas autoridades nacionais até as 20h (de Brasília) desta quarta-feira — o Brasil ainda não registrava nenhuma morte, e a Itália não havia ultrapassado o número de vítimas da China.

Na avaliação de Pregliasco, os dados oficiais disponibilizados pela OMS são confiáveis, apesar de dependerem do número de testes realizados em cada país e do método escolhido para estes exames.

Ainda que tenha registrado 8 mil casos positivos, a Coreia do Sul não foi utilizada na comparação por ter conseguido frear o avanço da pandemia realizando ações diferentes das dos demais países.

Os casos 'ocultos' de covid-19


Enfermeira deixa hospital em Codogno, onde primeiro caso italiano foi confirmado oficialmente; no entanto, pesquisadores acreditam que o novo coronavírus já estava na Itália desde janeiro

Nesta quinta-feira, o governo italiano anunciou que o país chegou a 41.035 casos confirmados desde o início do surto. Para Cartabellotta, porém, o número não é realista e representa "só a ponta do iceberg": "Assumindo que a gravidade da doença na Itália é semelhante à chinesa, pode-se prever que a parte submersa do iceberg tenha mais de 70 mil casos leves ou sem sintomas identificados".

Na Itália, os exames são feitos, na maior parte das vezes, em pacientes com sintomas. Foram feitos 182.777 testes até agora — em média, um a cada 330 moradores do país.

O problema da subnotificação se repete em todos os países que não tenham adotado uma estratégia agressiva de testar ampla parte de população. Em entrevista ao Estado de S. Paulo, o presidente do Hospital Albert Einstein, Sidney Klajner, estimou que o Brasil tenha 15 casos "ocultos" para cada diagnosticado.

A subnotificação ajudaria a explicar por que a doença demorou tanto a ser identificada na Itália. Pesquisadores acreditam que o vírus já estava na Itália desde a metade de janeiro, mas o primeiro caso só foi comprovado pelo sistema italiano de saúde em 21 de fevereiro, em Codogno, cidade industrial de 16 mil habitantes a menos de uma hora de Milão.

"A epidemia chinesa ainda estava no começo e nenhuma restrição ou vigilância havia sido iniciada na Itália", lembra Cartabellotta.

Distanciamento social vai continuar

O primeiro-ministro da Itália, Giuseppe Conte, revelou na quinta-feira, em entrevista ao jornal Corriere della Sera, que o bloqueio total do país e o fechamento das escolas e faculdades serão estendidos para além de 3 de abril, data prevista no decreto que impôs uma quarentena nacional a 60 milhões de habitantes.

Apesar da série de decretos assinados por Conte nas últimas semanas, nem toda a Itália se submeteu à quarentena imposta pelas autoridades. O governo da Lombardia, região mais afetada pelo novo coronavírus, usou dados fornecidos por empresas de telefonia celular para concluir que cerca de 40% dos moradores continuam se distanciando mais de 500 metros de casa.

"Na falta de uma vacina ou de remédios específicos para o vírus, as medidas de distanciamento social são a única arma à nossa disposição para neutralizar a epidemia", alerta Cartabellotta.

A eficácia, porém, está condicionada a uma alta adesão por parte da população às recomendações das autoridades — seja na Itália, seja no Brasil.


Ministro da Saúde: "Em abril, nosso sistema entra em colapso"



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