sexta-feira, março 27, 2020

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Isolado: Ao insistir em "normalidade" em pandemia, Bolsonaro constrange e afasta aliados; Previsão é que eleve tom beligerante.


Pronunciamento do presidente em rede nacional abriu nova frente de crise política.

Avaliação de pessoas próximas ao presidente é que ele não deve recuar e próximos dias devem ser de elevação do tom beligerante.

A pandemia de coronavírus foi a primeira crise, em 15 meses da gestão Jair Bolsonaro, não produzida artificialmente pelo clã bolsonarista. Em 5 minutos, porém, o mandatário conseguiu ampliar o tamanho dos atritos e se isolar até mesmo dentro do próprio governo.

Ao afirmar no pronunciamento em rede nacional na noite de terça-feira (24) que o País precisa “voltar à normalidade”, quando a orientação da OMS (Organização Mundial de Saúde) é restringir ao máximo a circulação de pessoas, o presidente gerou uma reação em cadeia: além de surpreender auxiliares próximos, que se viram desconfortáveis e sem respostas, encheu a oposição de munição. 

Ele perdeu o apoio até de um de seus mais aguerridos aliados: o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM). Ele chegou a dizer na quarta-feira (25) que não respeitará mais as decisões de Bolsonaro: “Não tem mais diálogo com esse homem”.

A fala em cadeia nacional do presidente foi escrita a várias mãos, sob o olhar atento do filho Carlos Bolsonaro, considerado o mais radical de todos. Mesmo ministros palacianos que têm estado ao lado do presidente em momentos complicados com o Congresso, mantiveram-se cabisbaixos nesta quarta. O clima pelos corredores do Palácio do Planalto, segundo relatos feitos ao HuffPost, era de constrangimento. 

Sem ser ouvido em conversas, nem chamado a opinar, tendo como única frente de ação o Conselho da Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão convocou uma coletiva sobre o tema, na qual aproveitou para desautorizar Jair Bolsonaro, dizendo que ele pode ter “se expressado mal”. 

“A posição do governo por enquanto é uma só: a posição do governo é o isolamento e o distanciamento social. Está sendo discutido e ontem o presidente buscou colocar, pode ser que tenha se expressado de uma forma que não foi a melhor, mas o que ele buscou colocar é a preocupação que todos nós temos com a segunda onda. Temos a primeira onda, que é a saúde, e a segunda que é a questão econômica”, afirmou.

Segundo o que pensa Bolsonaro, disse Mourão, é preciso esperar passar esse período que estamos em isolamento para que haja “calibragem” na forma pela qual a epidemia está se espalhando. “E, a partir daí, se possa gradativamente ir liberando as pessoas dentro de atividades essenciais para que a vida vegetativa do País prossiga.”

Outro exemplo do tamanho do constrangimento provocado por Bolsonaro e sua atuação foi observado na teleconferência da manhã de quarta com governadores do Sudeste, quando Bolsonaro bateu boca com o chefe do Executivo de São Paulo, João Doria.

Enquanto o presidente respondia críticas recebidas pelo ex-aliado, acusando-o de “leviano” e “demagogo”, ministros apenas olhavam para baixo, rabiscavam no papel, evitando inclusive “olhar entre si”, relatou um dos participantes da reunião ao HuffPost.  

Apesar do incômodo quase generalizado - menos da ala radical, que neste momento é minoria -, avalia-se que dificilmente o presidente irá recuar e admitir que errou em algo. Afirma-se, nos bastidores, que “não é do feitio de Bolsonaro admitir erros ou derrotas, ou abaixar a cabeça”. 

O que aliados esperam para os próximos dias, ao contrário, é uma elevação no tom e na beligerância nas redes sociais, entrevistas, pronunciamentos.

Um futuro incerto

Os ânimos no Palácio do Planalto estão de tal forma à flor da pele — e dizem fontes do governo que, em grande parte, pelo temperamento explosivo e as “síndromes de perseguição típicas do presidente” —, que uma coletiva de imprensa prevista para ocorrer após a teleconferência com os governadores do Sudeste na manhã de quarta, bem como um pronunciamento de Bolsonaro, foram cancelados.

No resto do dia, a expectativa ficou em torno do futuro do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. E deve seguir ainda pelos próximos. 

Médico por formação, o deputado que se afastou de sua vaga na Câmara para assumir o cargo vem sendo constantemente elogiado pelo trabalho técnico que tem implementado na pasta na gestão da crise do coronavírus, o que gerou ciúme no chefe. Por conta disso, desde semana passada, Bolsonaro tomou à frente das manifestações do governo a respeito da pandemia. Foi desde então, inclusive, que a crise interna vem crescendo. 

Na manhã de quarta, Bolsonaro disse que conversaria com Mandetta para uma modulação no discurso do ministério. Na rotineira coletiva de imprensa para atualizar os dados do coronavírus, o ministro afirmou que fica no governo e chegou a mandar breves recados para o chefe. 

“Eu saio daqui na hora que o presidente - que me nomeou - achar que não devo trabalhar, ou se estiver doente, ou no momento em que achar que esse período todo de turbulência já tenha passado e eu possa não ser mais útil. Nesse momento de crise, vou trabalhar ao máximo, a equipe está empenhada, vamos trabalhar com critério técnico.”

No fim das contas, contudo, o presidente venceu e conseguiu fazer que Mandetta recuasse em parte de sua retórica. “Não vamos fazer nada que a gente não tenha confiança que possa sugerir. Temos de melhorar essa coisa da quarentena, não foi bom, foi precipitado, foi cedo”, reconheceu Mandetta.

A restrição de circulação de pessoas é adotada para reduzir o ritmo de contágio e evitar que um grande número de pessoas fique doente ao mesmo tempo, o que poderia provocar um colapso do sistema de saúde. Esse alerta foi feito pelo próprio ministro da semana passada. 

O número de casos confirmados do novo coronavírus no Brasil chegou a 2.433, de acordo com balanço divulgado pelo Ministério da Saúde nesta quarta. Já são 57 mortos em 5 estados. 

Apesar de ter dito publicamente que fica e repetir a quem lhe pergunta que não quer deixar a pasta, Mandetta afirma a amigos mais próximos saber que está com a cabeça a prêmio. Para substituí-lo já existem até nomes na jogada: o atual presidente da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), Antonio Barra, e o ex-ministro da Cidadania Osmar Terra. 

Barra é militar e está ao lado de Bolsonaro com frequência. Inclusive, foi quem endossou a decisão do presidente no último dia 15 de março de aparecer no Palácio do Planalto e apertar a mão de manifestantes. 

Terra, por outro lado, é do MDB, partido de Paulo Skaf, presidente da Fiesp, com quem Bolsonaro também tem estado constantemente em contato. O empresário vem trabalhando bastante para viabilizar o Aliança pelo Brasil, o partido que Bolsonaro tenta colocar de pé. 

E o DEM?

Pelo sim, pelo não, Mandetta aguarda e faz o discurso mais político possível. Em seu partido, o DEM, embora haja uma divisão sobre sua permanência no cargo ou não - há uma parte que acredita que, desde 15 de março, quando Bolsonaro apareceu na manifestação contra o Congresso e o STF e começou a repetir que tem que estar ao lado do povo, o ministro deveria ter pedido demissão -, o chefe do Ministério da Saúde conta com apoio incondicional e aplausos sobre sua atuação na pasta. 

As atitudes do presidente com Mandetta já desencadearam, no DEM, conversas sobre o rompimento do partido com o governo. 

A legenda tem três ministros na Esplanada dos Ministérios de Bolsonaro: Além de Mandetta, na Saúde, Teresa Cristina, na Agricultura, e Onyx Lorenzoni, atualmente na Cidadania (ex-Casa Civil). Destes, apenas Onyx demonstra apoio público incondicional ao presidente. É amigo pessoal e antigo do mandatário. 

Um desembarque do DEM do governo, afirmam aliados e parlamentares, mais do que desfalcar ainda mais o núcleo de apoiadores bolsonaristas na gestão, cada vez mais minguado, toca em uma outra questão sensível: os presidentes da Câmara e do Senado, Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre, respectivamente, que até o momento têm “aliviado” para Bolsonaro, também são do Democratas.

O alerta é: “Com tudo o que Bolsonaro tem dito e feito, impeachment já não é mais uma palavra que se ouve pouco em Brasília”, afirmou uma fonte da cúpula do Congresso Nacional. 

Pronunciamento de Bolsonaro foi escrito para militância e teve 'ok' de Carlos.


Pronunciamento do presidente foi escrito à várias mãos com preocupação com apoio da militância.

Presidente se preocupa com apoio da população às medidas de contenção implantadas por governadores, opostas às suas orientações.

O pronunciamento do presidente Jair Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV na noite de terça-feira (24), no qual ele voltou a minimizar o coronavírus, foi escrito a várias mãos numa tentativa de incitar, mais uma vez, o apoio da militância bolsonarista.

A avaliação do núcleo radical, liderado pelo filho Carlos Bolsonaro, que inclusive deu o “ok” final ao texto falado pelo pai, é de que a pandemia tem feito o discurso do mandatário perder espaço e as medidas de contenção do vírus, com isolamento social, fechamento de comércio, e até restrições nas estradas em alguns estados, têm ganho força e apoio da maior parte da população. 

O isolamento para todas as faixas etárias, não apenas para idosos, como defende o presidente, é a recomendação da OMS (Organização Mundial de Saúde). A entidade alerta que crianças e jovens também morrem pelo vírus que se espalha com muita facilidade e, embora já se tenha exemplos de como age, ainda não é possível afirmar totalmente a gravidade e até agora aparecem novos sintomas. 

A intenção do isolamento social é reduzir a curva de transmissão de forma a não sobrecarregar o sistema de saúde. Se todos ficarem doentes ao mesmo tempo, os hospitais não conseguirão atender todo mundo. 

O ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que embora tenha adotado um tom mais político nos últimos dias após ter despertado ciúme no chefe por conta dos elogios que vem recebendo, não participou da elaboração do discurso na terça. 

A fala de Bolsonaro seguiu a linha do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, defendendo o retorno ”à normalidade” no dia em que o País viu o número de mortos por coronavírus crescer 16% entre segunda (23) e terça e passar para 46. No Brasil, o número de infectados passa de 2 mil. 

Nesta manhã, o presidente foi às suas redes sociais e reforçou seu discurso pelo retorno à normalidade, o fim do isolamento social e da importância de movimentar a economia. 

Na porta do Palácio da Alvorada, disse que preparou seu pronunciamento sozinho, que é “responsável pelos próprios atos”. Também ironizou as críticas que recebeu logo após sua fala em cadeia nacional. “Ser criticado por quem nunca fez nada pelo Brasil?”. 

Minutos após o pronunciamento, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), emitiu uma nota na qual afirmou que o Brasil “precisa de uma liderança séria, responsável e comprometida com a vida e a saúde da sua população”. Também o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), chamou a fala de Bolsonaro de “equivocada”, disse que o governo federal deveria reconhecer os esforços que vêm sendo adotados pelos estados para tentar conter o coronavírus e ainda recomendou seguir as orientações dos profissionais de saúde. 

O que preocupa o clã?  

Uma pesquisa do Instituto Datafolha, divulgada nesta terça-feira (24) pelo jornal Folha de S.Paulo, mostra que TVs e jornais lideram o índice de confiança em informações sobre a crise do novo coronavírus. 

O que preocupou o núcleo bolsonarista foi especialmente um dado apontado pela pesquisa: 12% disseram que confiam no que leem no WhatsApp; 58% não confiam; 24% confiam em parte e 6% não utilizam o aplicativo, um dos principais meios usados pelo clã e seus apoiadores para espalhar informação (e desinformação). 

Outro resultado que chamou a atenção, em especial por Bolsonaro ter sido eleito com a ajuda das redes sociais, foi: 12% responderam que confiam em informações que circulam no Facebook; 50% não confiam; 25% confiam em parte e 13% não utilizam a rede.

O Datafolha entrevistou 1.558 pessoas por telefone, de quarta (18) a sexta-feira (20). A margem de erro é de três pontos para mais ou para menos.

Sociedade Brasileira de Infectologia rebate fala de Bolsonaro e reafirma necessidade de isolamento.


O presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento nesta terça-feira, 24

A Sociedade Brasileira de Infectologia divulgou uma nota na noite desta terça-feira, 24, rebatendo as declarações feitas pelo presidente Jair Bolsonaro em cadeia nacional de rádio e TV e reafirmando a necessidade de isolamento social para conter a pandemia do coronavírus. A entidade ainda criticou a classificação dada pelo presidente à doença: "resfriadinho" e se mostrou preocupada com a "falsa impressão" dada por ele de que as medidas anunciadas são inadequadas.

"Neste difícil momento da pandemia de Covid-19 em todo o mundo e no Brasil, trouxe-nos preocupação o pronunciamento oficial do presidente da República Jair Bolsonaro, ao ser contra o fechamento de escolas e ao se referir a essa nova doença infecciosa como 'um resfriadinho'. Tais mensagens podem dar a falsa impressão à população que as medidas de contenção social são inadequadas e que a Covid-19 é semelhante ao resfriado comum, esta sim uma doença com baixa letalidade. É também temerário dizer que as cerca de 800 mortes diárias que estão ocorrendo na Itália, realmente a maioria entre idosos, seja relacionada apenas ao clima frio do inverno europeu. A pandemia é grave, pois até hoje já foram registrados mais de 420 mil casos confirmados no mundo e quase 19 mil óbitos, sendo 46 no Brasil", afirma o presidente da entidade, Clóvis Arns da Cunha. 

Durante seu pronunciamento em TV e rádio, o presidente voltou a usar a palavra "histeria" para classificar as medidas de isolamento impostas por Estados e municípios em todo o País, como fechamento de comércios e restrições a locais públicos, como parques e escolas. Bolsonaro chegou a criticar diretamente o fechamento de escolas, sejam públicas e privadas, já que, segundo ele, apenas idosos podem sofrer consequências mais graves se contagiados.

De acordo com a entidade, Bolsonaro acerta quando elogia o trabalho do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta,

e sua equipe, e também quando se mostra preocupado com o impacto socioeconômico da pandemia, mas reforça que, "do ponto de vista científico-epidemiológico, o distanciamento social é fundamental para conter a disseminação do novo coronavírus, quando ele atinge a fase de transmissão comunitária", na qual o Brasil atualmente se encontra. Hoje, há casos registrados em todos os Estados.

Nesta quarta-feira, 25, o presidente voltou a defender suas posições contra o isolamento social, contrariando mais uma vez as recomendações médicas e sugeridas por integrantes de seu próprio governo, como o ministro da saúde e sua equipe. Em entrevista concedida na saída do Palácio da Alvorada, Bolsonaro chegou a reclamar que caminhoneiros - parte de seu eleitorado - não têm mais onde se alimentar com o fechamento de restaurantes nas estradas.

"Médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas e todos os demais profissionais de saúde estão trabalhando arduamente nos hospitais e unidades de saúde em todo o País. A epidemia é dinâmica, assim como devem ser as medidas para minimizar sua disseminação. “Ficar em casa é a resposta mais adequada para a maioria das cidades brasileiras neste momento, principalmente as mais populosas", conclui Cunha.

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