terça-feira, março 24, 2020

MINHA VIDA GAY

Na Inglaterra, novela mais longeva do mundo debate homofobia no futebol



A homofobia no futebol não é um tema novo, mas está cada vez mais em pauta. No Brasil, campanhas de apoio à comunidade LGBT e punições aos torcedores que insistem em manifestar seu preconceito nos estádios têm se tornado comuns, ainda que o problema esteja longe de ser erradicado. Na Inglaterra, o assunto vem sendo debatido na novela longeva do mundo: Coronation Street, no ar há desde 1960 pelo canal ITV. O protagonista é o jogador fictício James Bailey, protagonizado pelo ator Nathan Graham.

Coronation Street é uma novela que já atravessou quase seis décadas no ar e, apesar do nome (rua da coroação, em inglês) e de historicamente ter membros da realeza como parte de sua fiel audiência, nada tem a ver com a monarquia britânica. Trata do dia a dia da classe trabalhadora na cidade fictícia de Weatherfield, e, de tempos em tempos, apresenta novas temáticas. Na atual trama, um jogador de futebol tem de lidar com boatos sobre sua sexualidade e as dificuldades de lidar com isso num vestiário machista.

O ator Nathan Graham espera que a história possa expandir o debate e encorajar atletas gays a se posicionarem. “Espero que alguém que esteja assistindo possa pensar: OK, eu posso fazer isso. Talvez eu possa ser o primeiro jogador a assumir”, afirmou Nathan em entrevista à BBC. Atualmente, assim como no Brasil, não há nenhum caso de atleta assumidamente gay na elite do futebol inglês.

Para compor o papel, Nathan, que não é gay, diz ter conversado com Keegan Hirst, atleta de rúgbi que revelou sua homossexualidade em 2015. “Percebei que esse ainda é um grande problema. Se não fosse, creio que haveria jogadores de futebol abertamente gays no mundo”.

O último caso de jogador que se assumiu gay quando ainda jogava na Inglaterra foi o de Justin Fashanu, há 30 anos. O atacante com passagens por diversos clubes, como Nottingham Forest e Manchester City cometeu suicídio em 1998, oito anos após revelar publicamente a sua orientação. Na época, ele respondia a uma acusação de agressão sexual contra um jovem de 17 anos.

“O mundo avançou bastante desde então, mas ainda não avançou o suficiente nesta área, há um estigma”, afirmou Nathan. A BBC também ouviu Craig Bratt, que é gay e trabalha na equipe de imprensa do clube Exeter City, da terceira divisão inglesa. Ele relatou o quanto o meio do futebol ainda é homofóbico, mas disse acreditar que o cenário de mudança está sendo preparado.

“Não tenho certeza de que alguém seja forte o suficiente ou tenha confiança para ser o primeiro jogador (abertamente gay da atualidade). Quem puxar a fila primeiro terá muita atenção, pedido de entrevistas. Acho que quando tivermos um segundo, terceiro, quarto, quinto, será normal. Aí ninguém realmente se importaria com histórias sobre jogadores gays.”

Milton Cunha diz que não perdoou os pais por ter sofrido preconceito.



Carnavalesco, cenógrafo e comentarista da TV Globo relembrou alguns traumas e dificuldades que passou na infância.

arnavalesco, cenógrafo e comentarista Milton Cunha participou do Papo de Segunda de ontem, na GNT, e relembrou alguns traumas e dificuldades que passou na infância devido a sua orientação sexual, em específico sobre a não aceitação de seus pais.

Abertamente gay, Milton viveu até os 19 anos em Belém, cidade em que nasceu, antes de se mudar para o Rio de Janeiro e iniciar na carreira artística e no carnaval carioca. Durante o tempo que passou na cidade portuária do Pará, ele contou ter sofrido com a sua família.

“Lembro do meu pai com uma ternura enorme porque sei que ele não conseguia lidar com o que eu era, e acreditem, eu era”, conta ele, se referindo ao genitor como um homem sem repertório cultural e emocional, que não o entendia porque fugia dos padrões aceitáveis de uma época, lugar e situação.

“Quando você nasce uma ‘bichinha’, em um lugar onde você é o afeminado da parada, você olha os adultos ao redor e diz: ‘ferrou, estou sozinho e ninguém gosta de mim’. A porrada vem de todos os lados; do vizinho, na escola? é de uma solidão fantástica”, relembra o comentarista de escolas de samba da Rede Globo.

“Veja bem, meu pai trabalhava com lanternagem de carro em oficina, vivia cheio de graxa, gostava de jogo de futebol, amigos, aquela loucura toda. Então ele me dizia: ‘Teus olhos não me enganam’ [se referindo ao fato de ser gay]. E eu respondia: ‘Mas não quero te enganar'”.

Durante a entrevista, Milton ainda revelou que, mesmo após décadas, não perdoou os pais pelo passado. “Dez anos depois [que sai de Belém], uma década se passou, e eles me ligavam para dizer ‘Eu te perdoo”, e eu respondia: ‘Não, quem não perdoa vocês sou eu. Eu não perdoo vocês”, afirmou.

“A gente vai levando. É o que tem pra hoje, né, mas se eu perdoei eles? Isso é complicado”, concluiu.

Com início carnavalesco na Beija-Flor, em 1994, Milton também recordou do momento em que tudo mudou, quando deixou a sua cidade natal logo após terminar a universidade de psicologia, em 1982, para correr atrás do sonho. Com apenas 19 anos, R$ 100 no bolso e sem conhecer ninguém no “Rio Maravilha”, como o próprio nomeia a capital carioca, viajou sem medo e sem olhar para trás.

“Quando anunciei que ia embora, meus pais não acreditaram”, contou ele. “Mas quando desci a escada de casa no horário de pegar o ônibus e vi meu pai sentado na sala, pensei: ‘agora o pau vai comer’. Mas não, foi ao contrário; ele fez questão de me levar até a rodoviária de carro”.

“Entramos no Fusca e fomos os dois chorando. Quando chegamos, ele me disse: ‘Você está fazendo o que eu devia ter feito quando tinha a sua idade’. Eu, sem olhar, disse antes de bater a porta do carro e sair: ‘Perdeu. Você não fez e eu estou fazendo agora”, relembrou.

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