terça-feira, março 17, 2020

POLÍTICA

Maia: Atitude de Bolsonaro de ignorar risco de coronavírus é ‘atentado à saúde pública’.


Presidente cumprimentou apoiadores na frente do Palácio do Planalto neste domingo, mesmo tendo desaconselhado protestos em rede nacional na quinta.

Alcolumbre chamou ato de "inconsequente". Em resposta na CNN Brasil, presidente provocou congressistas a ir às ruas e falou em superar "picuinhas".

Horas após o presidente Jair Bolsonaro romper o monitoramento que deveria seguir por ter tido contato com pessoas infectadas por coronavírus e cumprimentar pessoas que estavam nas manifestações de apoio a ele, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), disse que ele faz “pouco caso da pandemia” e que sua atitude é um “atentado à saúde pública”. 

"Por aqui, o Presidente da República ignora e desautoriza o seu ministro da Saúde e os técnicos do ministério, fazendo pouco caso da pandemia e encorajando as pessoas a sair às ruas. Isso é um atentado à saúde pública que contraria as orientações do seu próprio governo."

-Rodrigo Maia

Maia criticou ainda o fato de o governo ainda não ter criado um “gabinete de crise” e de Bolsonaro não demonstrar preocupação com o momento. Acrescentou ainda a necessidade de se agir com “serenidade, racionalidade, união de esforços e respeito”.

"Mas, pelo visto, ele está mais preocupado em assistir às manifestações que atentam contra as instituições e a saúde da população. A situação é preocupante e exige de todos nós serenidade, racionalidade, união de esforços e respeito. Somos maduros o suficiente para agir com o bom senso que o momento pede."

Em nota, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), também comentou os protestos deste domingo, em um recado claro ao mandatário, afirmando que ”é inconsequente estimular a aglomeração de pessoas nas ruas”.  

“A gravidade da pandemia exige de todos os brasileiros, e inclusive do presidente da República, responsabilidade! Todos nós devemos seguir à risca as orientações do Ministério da Saúde”, disse o senador. Ele também criticou o teor das manifestações, que criticavam o Congresso Nacional: “Convidar para atos contra os poderes é confrontar a democracia”.

Poucos minutos depois, em entrevista exclusiva à CNN Brasil, Jair Bolsonaro rebateu as críticas dos presidentes do Legislativo, chamando-os a irem às ruas. 

“Gostaria que ele saísse às ruas como eu. Minha resposta é essa. Nós políticos temos responsabilidades e devemos ser quase que escravos da vontade popular. Saiam às ruas. Respeito os dois, não tenho nenhum problema com eles. Estão fazendo suas críticas, espero que não queiram partir para algo perigoso depois dessas minhas palavras aqui. Agora, prezado Davi Alcolumbre, prezado Rodrigo Maia, querem sair às ruas? Saiam às ruas e vejam como vocês são recebidos”, afirmou o presidente. 

Bolsonaro aproveitou para falar indiretamente sobre a negociação que houve com o Congresso há duas semanas em torno da manutenção do veto presidencial ao Orçamento de 2020. Para que assim fosse, o governo enviou ao Parlamento três projetos de lei garantindo a repartição entre União e congressistas de R$ 30 bilhões que, inicialmente, ficariam somente a cargo do relator em emendas.

O mandatário nega ter feito acordo e, nos bastidores, tem jogado a responsabilidade para cima de seu ministro da Secretaria de Governo, Luiz Eduardo Ramos. 

“Outra coisa: os acordos não têm que ser entre nós em gabinete com ar refrigerado.Têm que ser entre nós e o povo. Quero a participação do Rodrigo Maia, quero a participação do Davi Alcolumbre.”

Por fim, Jair Bolsonaro propôs um encontro com Maia e Alcolumbre para resolver “picuinhas”: “Se chegarmos a um bom entendimento e partirmos para pauta de interesse da população, todos seremos muito bem tratados, reconhecidos e até idolatrados na rua. É isso o que eu quero. Estou disposto a recebê-los aqui no Alvorada. E até se quiserem vou até o Parlamento, eu vou ao Parlamento e vamos deixar de lado qualquer picuinha que porventura exista. O Brasil está acima de nós três.”

“Fazer aglomeração é completamente equivocado”

Também em entrevista à CNN Brasil, o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, negou que o presidente tenha deixado o “isolamento”, afirmando que ele está “em monitoramento”. Mas chamou de “equivocadas” quaisquer tipos de aglomeração neste momento. 

“Acho que fazer aglomeração é completamente equivocado. Não só essa. Mas aglomeração de igreja. Está na hora de a igreja católica, a evangélica, de os padres, os pastores dizerem: olha, vamos fazer as nossas orações, ou cultos muito pequenos ou em casa. Shows, a parte da cultura, teatro...”

Jair Bolsonaro seguiu num comboio pela Esplanada dos Ministérios na manifestação deste domingo (15) e, em seguida, cumprimentou apoiadores em frente ao Palácio do Planalto. Tirou fotos, apertou mãos. 

Bolsonaro fez um teste e uma contraprova para coronavírus cujo resultado foi negativo, segundo divulgou em suas redes.

Ele foi submetido a esses exames após o chefe da Secretaria de Comunicação da Presidência da República, Fabio Wajngarten, testar positivo para o vírus. Ao menos outras nove pessoas que estiveram na comitiva presidencial aos Estados Unidos na semana passada também estão com covid-19. 

Como informou o jornal O Estado de S. Paulo, o presidente deverá se submeter a novos exames nos próximos dias e, até lá, deveria manter-se em isolamento. 

Desde que o número de casos começou a aumentar, o Ministério da Saúde tem recomendado que se evitem aglomerações e que as pessoas parem de  se cumprimentar com apertos de mão e beijos. O próprio presidente, na quinta (11), usou a rede nacional de rádio e televisão para desaconselhar as pessoas de irem às ruas neste domingo. 

Apesar disso, Bolsonaro passou o dia postando em suas redes sociais imagens dos protestos, que ocorreram em pelo menos 200 cidades no País. 

Seu filho Carlos sugeriu, em um post, que “a velha política”, como o clã costuma se referir ao Congresso, é mais ameaçadora que o coronavírus. 

"Talvez as pessoas que foram às ruas enxergam nas velhas raposas chantagistas, corruptas e conspiradoras uma ameaça maior ao futuro do país e das vidas de seus entes. O isentão nunca entenderá, porque ele sim está numa bolha muito distante da dura realidade do brasileiro comum!"

-Carlos Bolsonaro

Bolsonaro desafia Rodrigo Maia e Davi Alcolumbre: “Saiam às ruas como eu”.


Bolsonaro interrompe o isolamento pelo coronavírus e confraterniza com manifestantes em frente ao Palácio do Planalto

O presidente Jair Bolsonaro elevou o tom contra os presidentes da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e desafiou os políticos a irem às ruas em vez de criticá-lo pela participação nas manifestações ocorridas neste domingo, 15, e que haviam sido convocadas originalmente como um ato de protesto contra o Congresso e o Supremo Tribunal Federal (STF).

“Eu gostaria que eles saíssem às ruas como eu”, disse Bolsonaro, ao ser questionado por um repórter da CNN Brasil sobre as críticas que recebeu de Maia e Alcolumbre por sua presença na manifestação de Brasília, O presidente, que deveria ficar isolado até realizar um novo teste para o coronavírus, caminhou ao lado simpatizantes que estavam no Palácio do Planalto, cumprimentou pessoas e tirou selfies com os celulares dos seus apoiadores.

“Nós, políticos, temos responsabilidade e devemos ser quase que escravos da vontade popular. Saiam às ruas. Eu respeito os parlamentares, não tenho problemas com eles. Estão fazendo suas críticas, estou tranquilo no tocante a isso. Espero que eles não queiram partir para algo perigoso depois dessas minhas palavras aqui”, afirmou.

“Prezado Davi, prezado Rodrigo, saiam às ruas e vejam como são recebidos. Os acordos não têm que ser entre nós, em gabinetes com ar refrigerado. Eles têm que ser entre nós e o povo. Eu quero a aproximação com o Maia e com o  Davi Alcolumbre. Se nós chegarmos a um bom entendimento e partirmos para uma pauta de interesse da população, todos seremos muito bem tratados, reconhecidos e até idolatrados. É isso que eu quero. Não quero que só eu apareça e eles não”, afirmou o presidente.

Bolsonaro disse ainda que está disposto a receber os presidentes do Legislativo nesta segunda-feira, 16, para uma conversa. “Estou disposto a recebê-los aqui no Alvorada. Se quiserem, eu vou ao Parlamento. Vamos conversar e deixar de lado qualquer picuinha que por ventura exista. O Brasil está acima de nós três”, declarou.

O presidente também fez críticas ao acordo que os membros da sua administração negociaram com o Congresso para que fosse aprovado o orçamento impositivo. Estava previsto no pacto que os parlamentares iriam assumir o controle de 15 bilhões de reais do orçamento federal, sendo que 10 bilhões de reais ficariam com a Câmara dos Deputados e outros 5 bilhões de reais seriam destinados ao Senado. “Todos sabem que quem tem que ficar com o orçamento é o presidente”, disse.

Questionado sobre a sua ida às manifestações quando as autoridades sanitárias de todo o mundo pedem para que sejam evitadas aglomerações públicas, Bolsonaro afirmou que resolveu “ver o que estava acontecendo” a partir do momento em que pessoas decidiram protestar em diversas cidades do país. Ele disse que está sendo criticado por “pessoas que querem se esconder, que querem lançar uma cortina de fumaça porque estão com seus trabalhos sendo questionados”.

Bolsonaro considera que há uma histeria injustificada com relação à pandemia de coronavírus. “Outros vírus mais letais aconteceram no passado e não teve essa crise toda. Com certeza há interesses econômicos para que se crie essa histeria”, afirmou o presidente. Ele prometeu reforçar um gabinete de crise para avaliar medidas econômicas e aproveitou a entrevista para criticar a proibição de jogos de futebol no país.

“Nós devemos tomar providências, mas sem histeria. A economia tem que funcionar. Não podemos ter uma onda de desemprego, porque o desemprego leva as pessoas que não se alimentam muito bem a se alimentarem pior ainda. E aí elas ficarão ainda mais suscetíveis se forem infectadas”, declarou.

Onze brasileiros que estiveram com Bolsonaro nos EUA têm resultado positivo para coronavírus.




BRASÍLIA - Onze pessoas que estiveram na comitiva brasileira com o presidente Jair Bolsonaro nos Estados Unidos estão com coronavírus. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) confirmou na noite deste domingo, 15, que quatro integrantes da equipe de apoio do voo que levou os Estados Unidos, na semana passada, possuem resultado positivo para a doença. O Ministério das Relações Exteriores também confirmou que chefe do cerimonial do Itamaraty, Alan Coelho de Séllos, também está infectado com a Covid-19.

Com as novas confirmações sobe para 11 o número de infectados no grupo que acompanhou Bolsonaro na viagem à Flórida. Além dos 11 brasileiros, o prefeito de Miami, Francis Suarez, que recepcionou a comitiva brasileira também está com a Covid-19.

Segundo a nota divulgada pelo GSI, as quatros pessoas que testaram positivo estão assintomática e ficarão em isolamento em casa por 14 dias. Os exames foram colhidos na última sexta e encaminhados para a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), no Rio de Janeiro, no sábado.

“Os demais componentes, cujos testes apresentaram resultados negativos, continuarão no auto-isolamento, cumprindo o protocolo determinado pelas autoridades sanitárias", informa a nota.

Neste domingo, o Bolsonaro, que estava no voo, descumpriu a determinação de isolamento e participou de ato pró-governo. O presidente cumprimentou com a mão manifestantes e tirou fotos. Ele testou negativo para coronavírus, mas terá que refazer o exame.

Entre as pessoas tiveram resultado positivo para coronavírus estão o secretário de Comunicação, Fabio Wajngarten, e o seu adjunto Samy Liberman, além do encarregado de Negócios do Brasil nos Estados Unidos, o embaixador Nestor Forster e o senador Nelsinho Trad (PTB-MS). Também confirmaram diagnóstico a advogada Karina Kufa e o publicitário Sérgio Lima, respectivamente tesoureira e marqueteiro do Aliança do Brasil, que viajaram em voo comercial para os Estados Unidos.

Bolsonaro está mais preocupado com sua vida política do que com a vida das pessoas, diz Doria.




Para o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a atuação do presidente Jair Bolsonaro em relação aos atos pró-governo neste domingo, 15, foi "imprópria e inoportuna". Orientado a ficar em isolamento até refazer testes para o coronavírus, Bolsonaro cumprimentou apoiadores que se manifestavam no Palácio do Planalto.

“Imprópria e inoportuna. Nós estamos reunidos aqui para tomar decisões para proteger a vida das pessoas. E o presidente Bolsonaro está mais preocupado com a sua vida política. Eu procuro pensar em todos. O presidente pensa nele”, comparou o governador ao Estado. Ele é apontado como possível adversário de Bolsonaro na eleição de 2022.

Em Brasília, Bolsonaro chegou a usar o telefone celular de algumas pessoas para tirar selfies ao lado delas, além de cumprimentá-las com as mãos abertas. Em alguns momentos, chegou a colar o rosto ao de apoiadores para fazer fotos.

Além de participar do ato em Brasília, Bolsonaro passou o dia compartilhando vídeos e fotos sobre as manifestações no Twitter. Em uma delas, era possível ler faixas 'Fora Maia', em referência ao presidente da Câmara Rodrigo Maia (DEM-RJ), 'Fora STF' e 'SOS Forças Armadas'. Bolsonaro identificava a imagem como sendo de Maceió, Alagoas. A foto foi apagada da conta de Bolsonaro.

Na capital paulista, Doria foi alvo de manifestantes que gritavam contra o "comunavírus" e veem a pandemia como uma "farsa". Para alguns dos manifestantes, o governador tentou impedir a realização do ato. Na sexta, o governo de São Paulo e a Prefeitura da capital cancelaram eventos públicos com mais de 500 pessoas. A Secretaria de Segurança Pública do Estado manteve o policiamento dos atos que já haviam sido comunicado à autoridades.

"O Carnaval eles não tentaram impedir, a parada gay também não", discursou uma das lideranças do carro de som.

Políticos se unem para condenar Bolsonaro por ir a manifestação.



Em carta, Bebianno diz que Bolsonaro alimenta paranoias de Carlos

"Para manter o vínculo afetivo com ele, para manter a conexão física e emocional, o senhor embarca nessas fantasias, nessas paranoias, nas eternas teorias de conspiração", diz o texto.

Ex-ministro e ex-coordenador da campanha que elegeu Jair Bolsonaro presidente, Gustavo Bebianno escreveu, assim que deixou o governo, uma carta na qual alertava o chefe do Executivo sobre os riscos da influência de um de seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro (PSL-RJ). O texto foi revelado por dois jornais neste domingo, um dia depois da morte de Bebianno, aos 56 anos, vítima de um infarto fulminante. 

A carta foi enviada aos jornais O Globo e O Estado de São Paulo pelo empresário Paulo Marinho, amigo do ex-ministro e suplente do senador Flávio Bolsonaro. Desde sua demissão como secretário-geral da Presidência, em fevereiro de 2019, Bebianno não havia mais falado com o presidente. A carta, segundo o Estado de S. Paulo, foi entregue por Bebianno “a Onyx Lorenzoni, ao general Maynard Santa Rosa e ao ator Carlos Vereza para que dessem a Bolsonaro”. Segundo o jornal, Onyx confirmou a Bebianno que o presidente leu o texto. Bolsonaro ainda não se manifestou publicamente sobre a morte do ex-aliado.

No texto, Bebianno começa escrevendo que dedicou dois anos a “defender uma causa apelidada de Mito”. “Por mais que, agora, o senhor tente banalizar tudo o que fiz, para alívio da própria consciência, o senhor SABE que não chegaria até aqui sem o trabalho que fiz (trabalho que só deu certo porque fiz, acima de tudo, com AMOR — amor que intensamente desenvolvi por você. Amor hétero, como costumávamos brincar)”, diz.

O ex-ministro, começa então, um alerta sobre o comportamento de Carlos. “Meu Capitão, o senhor precisa acordar e cair em si. O senhor está obsediado. Obsediado pelo próprio filho. Carlos precisa de ajuda e só o senhor tem esse poder”, escreve.

De acordo com Bebianno, o vereador “vive em uma prisão mental e emocional” em que cultiva ódio “contra todos”, especialmente pessoas próximas ao presidente. “Ele é consumido pelo ódio 24 h por dia, independentemente do que esteja acontecendo no mundo real”, diz.

No entendimento do ex-ministro, Jair Bolsonaro alimenta essa situação. “Para manter o vínculo afetivo com ele, para manter a conexão física e emocional, o senhor embarca nessas fantasias, nessas paranoias, nas eternas teorias de conspiração. Carlos aprendeu a ser assim com o senhor. Foi o senhor que o ensinou, desde pequeno, a viver em confronto”, diz o texto.

Bebianno cita então o fato de Jair Bolsonaro ter emancipado o filho, então com 17 anos, para disputar um mandato na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, contra a própria mãe, Rogéria Nantes Braga Bolsonaro, em 2000. “Essas experiências deixam marcas, Capitão. A mente humana é muito profunda e complicada. É bom estar preparado para confrontos. Viver em permanente estado de beligerância nubla a mente e a existência”, diz a carta.

Segundo o texto, o presidente tem errado por não reconhecer esse processo, o que têm afastado aliados. “Ao agir assim, o senhor se mantém preso, mantém o seu filho preso, e gera um rastro terrível de destruição à sua volta”, alerta o ex-ministro.

Na sequência, ele sugere que o presidente leia a Bíblia e afirma que “sem querer e sem perceber, Carlos se tornou um canal aberto para influências espirituais negativas”. 

Ao final, Bebianno pede que o presidente mude de comportamento e reforça que nunca o traiu. “O senhor é um homem bom, justo, permita que isso venha à tona. Quebre os padrões negativos. Só o AMOR pode fazer isso. Só o amor tem o poder de salvar o Brasil e livrá-lo das influências negativas que o prejudicam”, escreve.

A saída de Bebianno do governo ocorreu em meio à divulgação do esquema de candidaturas laranja do PSL na campanha. Bebianno foi presidente do partido na época da disputa eleitoral. Na época, um desentendimento entre o então ministro e Carlos Bolsonaro foi o estopim para que ele deixasse o governo.

Ao assinar a demissão do ex-amigo, o presidente tentou colocar panos quentes. Fez elogios e disse que havia “a necessidade de uma reavaliação” em sua equipe. 

Desde que saiu do governo Bebianno vinha gradualmente aumentando o tom das críticas a Bolsonaro e seu clã. Em dezembro, Bebianno disse que iria processar Bolsonaro por insinuar que ele poderia ter participado do atentado contra o então candidato, durante a campanha. No mesmo mês, Bolsonaro afirmou à Veja acreditar que uma pessoa da sua equipe de campanha estaria envolvida no plano para matá-lo.

Uma de suas últimas declarações públicas também foi na contramão do presidente. Na última semana, Bolsonaro disse que houve fraude nas eleições de 2018, e que ele teria vencido no primeiro turno. Bebianno, que coordenava a campanha à época, afirmou que o presidente não tem provas de que isso tenha acontecido.

Insubordinação na cultura.




A nova secretária especial de Cultura, Regina Duarte, está em uma posição frágil. Mal assumiu e já vem levando pancadas de todos os lados. Pelo menos oito nomeações que ela queria fazer foram vetadas pelo presidente Jair Bolsonaro. De um modo geral, o que se vê até agora é Regina sendo desautorizada pelo presidente e ironizada pela ala mais ideológica do governo, que segue o astrólogo Olavo de Carvalho e é liderada por Carlos Bolsonaro.

Se continuar assim, sua manutenção no cargo estará seriamente ameaçada. Bolsonaro já a orientou a não liberar verbas para projetos ligados a bandeiras de esquerda, em particular para os relacionados a temáticas LGBT e a diversidade. Carlos declarou que pretende tirá-la do governo. Ficou claro que não há nenhuma possibilidade de Regina formar uma equipe de maneira livre e autônoma. Cada um de seus passos estão sendo vigiados com atenção por um grupo especial que assessora o presidente e verifica a adequação de qualquer nome indicado a cargos de confiança, segundo as regras do novo regime, que veta esquerdistas e propagadores do marxismo cultural.

A primeira invertida de Regina veio com a rejeição ao nome do produtor teatral Humberto Braga, ex-presidente da Funarte, que ela queria como número 2 da Secretaria de Cultura. Depois surgiu o caso do jornalista Sérgio Camargo, que assumiu a direção da Fundação Palmares. Regina anunciou que iria tirá-lo do cargo, mas Bolsonaro a desautorizou. A outra bordoada veio do veto à nomeação da assistente social Maria do Carmo Brant de Carvalho para a Secretaria da Diversidade. O governo constatou que Maria do Carmo havia trabalhado para Dilma Rousseff e Bolsonaro, alertado por Carlos, suspendeu a nomeação. Nos três casos, Regina ficou rendida e se resignou.

No seu discurso de posse, a secretaria criou desconforto quando disse que recebeu carta branca do presidente, mas ouviu em troca que ele faria questão de exercer seu poder de veto. Em uma entrevista que deu para o programa Fantástico, da TV Globo, também se atrapalhou ao chamar de facção a ala ideológica do governo. Regina disse que há um grupo que quer ocupar seu lugar. “Quer que eu me demita, que eu me perca”, afirmou. “Já tem uma hashtag #ForaRegina e eu nem comecei”. Pelo uso do termo facção, a secretária foi criticada publicamente pelo ministro da Secretaria do Governo, Luiz Eduardo Ramos. Ele disse que o uso do termo “dá a entender que há divisões inexistentes e inaceitáveis em nosso governo”. “O presidente valoriza a Cultura, que deve se espelhar na família tradicional e nos princípios cristãos”, disse Ramos.

Facção bolsonarista

A secretária também foi criticada por Olavo de Carvalho, que a chamou de “véia” pelo Twitter. “A Regina Duarte age como se o seu emprego no governo lhe pertencesse por direito natural contestado apenas por ‘uma facção bolsonarista’, quando na verdade foi essa facção, representada pelo presidente, quem lhe deu o emprego”, afirmou. “A óbvia inversão psicótica da realidade mostra que a veia não está boa da cabeça e não deve ocupar cargo nenhum”. Sérgio Camargo, que foi nomeado pelo apologista do nazismo Roberto Alvim, também ironizou a primeira entrevista da secretária, que o chamou de “problema” e disse que ele é “um ativista, mais que um gestor público”.

Camargo retrucou pelo Twitter. “Bom dia a todos, exceto a quem chama apoiadores de Bolsonaro de facção e o negro que não se submete aos seus amigos da esquerda de ‘problema que vai resolver’”, afirmou na segunda-feira 9. Na sua primeira semana no cargo, Regina enfrentou um ritmo de trabalho intenso. Na quarta-feira 11, ela se reuniu com deputados e senadores que não fazem parte do governo e foi aconselhada a defender a derrubada dos vetos feitos por Bolsonaro relacionados à continuidade até 2024 dos incentivos fiscais ao cinema.

Regina teria se mostrado sensível à pauta. Mas dificilmente Bolsonaro vai aceitar a proposta, que tem tudo para se tornar um foco de confronto do governo com o Legislativo. Pelo andar da carruagem, Regina ficará, em breve, em uma situação insustentável no cargo ou fará uma gestão de fachada, de coadjuvante, de namoradinha do governo. A secretária perceberá logo que na posição estratégica em que se encontra só lhe restará receber ordens.


Bolsonaro comparece aos atos de 15 de março depois de pedir que fossem adiados




MINISTRO FALA SOBRE RISCO DE CORONAVÍRUS NAS MANIFESTAÇÕES DE 15 DE MARÇO




A morte de Gustavo Bebianno e a carta deke a Jair Bolsonaro



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