sexta-feira, abril 10, 2020

DIREITOS

STF volta a discutir se proibir homens gays de doarem sangue é inconstitucional.



Documento diz que “homens que tiveram relações sexuais com outros homens" são impedidos de doar sangue por até 12 meses após a relação sexual.

Discussão foi iniciada em 2017 e será deve ser retomada no plenário do Supremo nesta quarta-feira (11).

“Foi muito constrangedor. A enfermeira perguntou se eu era gay. Eu respondi que sim, e que namorava há mais de um ano e que sempre usávamos camisinha”, relata Júnior Reis, de 26 anos, ao HuffPost. “Eu questionei e foi então que ela me disse, sem dar muitas explicações, que eu não poderia doar sangue, mas não me explicou por que. Só disse que ela estava cumprindo a norma”. 

Cinco anos depois, em 2017, a história de Júnior chegou até o STF (Supremo Tribunal Federal). A discriminação vivida por ele aos 16 anos inspirou uma ação que aponta como inconstitucional a restrição à doação de sangue por homens gays no Brasil. A discussão será retomada nesta quarta-feira (11)*

A restrição à doação de sangue por homens gays consta de duas portarias do Ministério da Saúde e da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). 

Um dos documentos diz que “homens que tiveram relações sexuais com outros homens” são impedidos de doar sangue por até 12 meses após a relação sexual. A justificativa é a maior incidência de HIV entre esses grupos, o que aumentaria o risco de infecção ao receptor do sangue doado.

A discussão é antiga e, agora, está nas mãos do STF. Os magistrados vão retomar o julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) 5543, ajuizada em 2016 pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB) com o objetivo de suspender imediatamente essas normas. O ministro Edson Fachin é o relator da ação.


No Brasil, homens que se relacionam com homens devem ficar 12 meses sem sexo para doar sangue.

“Eu sou filho de uma técnica de enfermagem, então sempre se falou muito da importância de doar sangue dentro de casa. E quando eu fiz 16 anos, quis doar”, lembra Júnior, citando a idade mínima para ser doador. “Eu lembro de ter saído de lá triste, chateado. Até porque fui com meu namorado, que também foi barrado e com outro casal heterossexual, que conseguiu doar normalmente.”

Júnior é formado em Direito e fez deste tema o seu trabalho de conclusão de curso. Atualmente, ele está se especializando em direito homoafetivo e questões de gênero. “Na época, eu não fazia ideia das normas ou do porquê aquilo aconteceu comigo. Foi aprofundando meus estudos sobre o tema que entendi: é uma restrição a vários direitos fundamentais, não só de quem é impedido de doar, mas também de quem é impedido de receber”, diz. 

Segundo as normas, um homem heterossexual que tenha feito sexo seja anal ou vaginal com apenas uma parceira, mesmo que sem camisinha, pode doar sangue no País; enquanto um homossexual mesmo que use preservativo fica vetado de doar pelos 12 meses seguintes à sua última relação sexual.

Desde 2017, quando a discussão teve início no Supremo, a expectativa do jovem é positiva. Caso a corte seja favorável ao pleito, Júnior planeja uma nova ida ao Hemocentro de Brasília, cidade onde mora. Mas, dessa vez, pretende ir acompanhado de outros jovens gays. “A ideia é fazer um mutirão”, conta. 

O que os ministros do STF pensam e o que pede a ação



Em 2017, Edson Fachin, relator do caso, considerou a norma inconstitucional ao dizer que ela coloca em xeque direitos fundamentais de um grupo social.

Em 2017, ao apresentar seu voto, Edson Fachin, que é relator da ação na corte, considerou a norma inconstitucional ao pontuar que ela coloca em xeque direitos fundamentais de um determinado grupo social.

Para ele, as restrições impostas são “quase proibitivas” e apenas baseadas na orientação sexual e no gênero do candidato à doação e não nas chamadas “práticas de risco”. Portanto, “incorrem em discriminação injustificada”.

“A norma viola a forma de ser e existir destas pessoas e o fundamento do respeito à diversidade e à dignidade humana e afronta a autonomia de quem deseja doar sangue, que é limitada não por razão médica ou científica”, disse.

O ministro considerou esse tratamento “desigual e desrespeitoso”. “Não se pode negar a quem deseja ser como é o direito de ser solidário e membro partícipe de sua comunidade. O princípio deve ser conduta e não gênero.”

Em seguida, os ministros Luís Roberto Barroso, Rosa Weber e Luiz Fux julgaram a ação procedente enquanto Alexandre de Moraes a julgou parcialmente procedente. Moraes não julgou a medida discriminatória, mas votou à favor da inconstitucionalidade. O ministro também defendeu que o material colhido ficasse sob observação e passasse por testes. 

O próximo a votar é o ministro Gilmar Mendes. Em seguida, ainda outros 6 ministros, assim como o presidente da corte, Dias Toffoli, precisam votar. A expectativa é de que o julgamento não termine nesta quarta-feira (11).

Na ação, o PSB afirma que as regras em vigor escancaram o “absurdo tratamento discriminatório por parte do Poder Público em função da orientação sexual, o que ofende a dignidade dos envolvidos e retira-lhes a possibilidade de exercer a solidariedade humana com a doação sanguínea”.

O fim das normas da Anvisa e do Ministério da Saúde foi defendido também, em 2017, pela Procuradoria-Geral da República.

Em relatório sobre a ADI, o então procurador-geral Rodrigo Janot afirma que tais condutas são contrárias à liberdade de orientação sexual e possuem “nítido caráter discriminatório e violador da dignidade humana, em confronto com esse conjunto de normas constitucionais”.

“No caso de homens heterossexuais, basta para sua habilitação que tenham feito sexo com parceira fixa nos 12 meses anteriores à doação, ainda que sem uso de preservativos. Já em relação a homens gays e bissexuais, os dispositivos vão muito além, para exigir absoluta ausência de quaisquer relações sexuais pelo período mínimo de um ano. Qualquer relação sexual com outro homem se torna obstáculo intransponível à doação, pouco importando que tenha ocorrido com parceiro fixo e com uso de preservativo”, diz o texto.

O que diz o Ministério da Saúde e a Anvisa 

Em contrapartida, as normas são defendidas pelo Ministério da Saúde e pela Anvisa, que consideram que homens gays estão nos chamados “grupo de risco” para a transmissão de vírus como o HIV e outras DSTs (Doenças Sexualmente Transmissíveis).

Em nota enviada ao HuffPost Brasil, o Ministério afirma que segue recomendações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e refuta que haja discriminação e aponta que as normas se sustentam em dados nacionais.

Em seu manual de seleção de doadores, a OMS inclui entre os perfis de alto risco, homens homossexuais sexualmente ativos e afirma que eles têm 19,3 vezes mais chances de terem o vírus HIV e apoia o veto total como política padrão. Porém, em 2018, a organização reconheceu que, nesse sentido, suas diretrizes sobre critérios de doação de sangue estão desatualizadas. 

“Essa medida atende a recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS), da Associação Brasileira de Hematologia e Hemoterapia (ABHH) e está fundamentada em dados epidemiológicos atualizados, presentes na literatura médica e científica nacional e internacional, não cabendo relação com preconceito quanto à orientação sexual do candidato a doação”, diz a pasta.

Segundo o Ministério, homens que fazem sexo com homens são considerados inaptos para a doação de sangue por 12 meses após a última exposição, mas não de forma definitiva. “Esta regra é a mesma aplicada em países europeus e de outras nacionalidades com perfis epidemiológicos semelhantes ao do Brasil”, aponta o comunicado.

As normas estabelecidas pelo Ministério da Saúde são criticadas por ativistas e especialistas. Até o momento, pelo menos outros 17 países não fazem distinção ou não estabelecem critérios específicos de exclusão de gays, como a Argentina, Chile, Colômbia, México, Peru, Espanha, Itália, Portugal e Rússia.

“Essa impossibilidade é estigmatização, é preconceito”


Ativistas protestam por direitos LGBT na Avenida Paulista, em São Paulo.

Defensores da inconstitucionalidade das normas afirmam que, caso ela seja derrubada, não acarretará aumento de contaminação ou vulnerabilidade. Ativistas alegam que, atualmente, a seleção de candidatos à doação e o modo como é feita já leva em conta práticas sexuais consideradas de risco, seja qual for a orientação sexual, e que testes aplicados às coletas já detectam o HIV.

“Nós não queremos que ninguém seja infectado com nenhum sangue que tenha algum problema, alguma questão. Nós somos favoráveis a todas as precauções possíveis para que o sangue seja bom para a transfusão”, esclarece Toni Reis, diretor-executivo do Grupo Dignidade, responsável pela campanha “Equal Blood”, de 2020, e “Igualdade na Veia”, de 2017.

"Essa impossibilidade é estigmatização, é preconceito. Quando você fala que o homem gay não pode doar sangue, diz que 100% dos gays são doentes."

-Toni Reis, diretor-executivo do Grupo Dignidade

“Mas este é mais um documento no nosso País que traz mais estigma para a população LGBT. Então nós temos que lutar contra. Essa impossibilidade é estigmatização, é preconceito. Quando você fala que o homem gay não pode doar sangue, diz que 100% dos gays são doentes”, critica Toni.

Seguindo protocolos estabelecidos internacionalmente, todo sangue doado é rigidamente testado e passa por um exame que identifica se o vírus está no sangue a partir de 11 dias após a contaminação.

No entanto, há o período chamado de “janela imunológica”, no qual o teste sorológico não detecta possíveis alterações, mesmo se estiver infectado pelo vírus; este é o período entre a infecção e a produção de anticorpos pelo organismo contra o HIV, que dura em torno de 25 dias.

Um outro pedido da ação em discussão no Supremo aponta que, se a decisão não for favorável, que os ministros ao menos considerem que as normas só sejam válidas no período da “janela imunológica”, em que testes são realizados e que a triagem no momento da doação seja mantida conforme a regra.

Os dados sobre HIV/Aids e homens gays no Brasil

O HuffPost solicitou números atualizados sobre HIV/Aids para o Ministério da Saúde, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.

Em 2018, pesquisa feita sob encomenda pela pasta apontou aumento da doença entre homens gays no País, sobretudo entre jovens, o que também preocupa ativistas e especialistas. É o estudo mais recente sobre o tema.

De acordo com os dados, a taxa de novos casos na faixa etária de 15 a 19 anos mais do que triplicou entre 2006 e 2015. Passou de 2,4 a 6,7 casos a cada 100 mil habitantes. Já na faixa etária dos 20 a 24 anos, a taxa dobrou de 15,9 para 33,1 casos a cada 100 mil habitantes.

O levantamento também aponta razões pelas quais o aumento da incidência do HIV se deu no país e, principalmente, entre jovens. Um deles é o esvaziamento de campanhas de prevenção destinadas ao público gay e, também, a perda de financiamento de organizações não governamentais especializadas no tema.
“Exigir um ano de celibato sexual é algo irreal, arbitrário. Só pessoas realmente celibatárias se enquadrariam nisso. Na pior das hipóteses - que também seria discriminatória e inconstitucional, que ao menos se respeite a janela imunológica e nada mais. É o que a ação requer, se a discriminação não for derrubada como um todo”, aponta o advogado Paulo Iotti, responsável pela ação acolhida pelo STF, em junho de 2019, que criminalizou a homofobia.

Defensores do veto à norma criticam que, conforme estudos sobre o tema e a medicina avançam, a norma permanece vigente; eles apontam que ela não restringe apenas homens gays. “Mulheres trans e travestis são consideradas ‘homens’ no atendimento por conta da genitália e do julgamento de uma suposta prática sexual insegura.  Assim como o de bissexuais”, explica Junior Reis. 

“Espero que a gente consiga reverter essa situação”, aponta Simmy Larrat, presidente da ABGLT (Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Travestis e Transexuais). “Existe uma imensa parte da população que pratica sexo anal. Mas isso não é perguntado a todo mundo que tem a intenção de doar sangue. Só a uma parte dela. Não há justificativa para esse preconceito”, finaliza.

*Este texto foi alterado para informar que o julgamento foi adiado para o dia 19 de março, quinta-feira. Inicialmente, a discussão sobre a ação seria retomada na quarta-feira, 18. Porém, o julgamento foi retirado da pauta do Supremo e ainda não há nova data disponível.

Planalto usa frase de Mandetta descontextualizada para defender uso da cloroquina.



Mandetta tem feito alertas sobre uso indiscriminado do medicamento. Ele ressalta que o Ministério da Saúde endossa o uso apenas em casos graves.

A Secretaria de Comunicação da Presidência da República começou uma campanha pelo uso da cloroquina no combate à covid-19 usando uma frase descontextualizada do ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta. O uso indiscriminado do medicamento é um ponto de tensão entre o ministro e o presidente Jair Bolsonaro.

Na peça, o governo diz que “estudos clínicos realizados ao redor do mundo tem mostrado resultados positivos para o uso da cloroquina contra a covid-19”. E acrescenta que o ministro da Saúde “já liberou o uso do medicamento para pacientes críticos e moderados”.




As aspas na imagem dão a entender que a pasta liberou para todos os pacientes internados — “tanto para os pacientes críticos, como para todos os internos em hospitais”. O ministro, no entanto, vem enfatizando que o uso é indicado para pacientes em caso grave e que cabe a cada médico decidir a prescrição.

Nesta terça-feira (7), o ministro afirmou que começaria a analisar a recomendação para uso anterior ao quadro grave.

Por que só caso grave

Um dos motivos pelos quais o medicamento é indicado apenas aos casos graves são seus efeitos colaterais. De acordo com a FioCruz, o medicamento ataca o coração e pode levar à morte. 

Segundo o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos (SCTIE), do Ministério da Saúde, Denizar Vianna de Araújo, quando o uso da cloroquina é feito em ambiente hospitalar “a proteção é maior”, por isso o ministério tomou a decisão de gerar uma política específica para os pacientes graves e críticos da covid-19. “Se o paciente tem indicação de hospitalização, um quadro de falta de ar, indícios de uma pneumonia bilateral e tem critérios de hospitalização, ele já é elegível para usar o medicamento”, explicou.


Bolsonaro e Mandetta têm divergido em relação ao uso do medicamento. 

O secretário reforça que o medicamento mostrou em estudos preliminares que pode ser favorável nesse tipo de paciente. “Quando pesamos a relação entre risco e benefício, os benefícios superam os riscos porque estamos lidando com paciente e com um potencial de letalidade muito alto. Podemos correr o risco de ter um evento adverso que está sendo monitorado num ambiente hospitalar para tentar favorecer o tratamento”, disse.

Sobre casos leves, que são cerca de 80%, ele afirmou que ainda não são robustas as evidências para tomar uma a decisão de política de saúde. “Vamos recomendar no momento em que tivermos evidências, que estão sendo geradas inclusive em estudos brasileiros”, afirmou Denizar Vianna.

Briga política

Nesta quarta (8), o ministro minimizou o embate político em torno da cloroquina. “Preciso que todos tenhamos maturidade, visão, foco, disciplina para que a gente possa atravessar esse momento. O presidente da República em nenhum momento fez qualquer imposição para mim [para uso da cloroquina]”, disse.

Segundo ele, o presidente entende que se há chance melhor para esse ou aquele paciente que a gente possa garantir o medicamento. “Mas também entende quando a gente coloca uma situação que pode ser complexa, que a gente precisa que os conselhos [de profissionais da saúde] analisem [para liberar o uso amplo].”

Nesta terça, Mandetta esclareceu que o Ministério da Saúde já liberou médicos para receitarem o uso em casos moderados e graves. Para casos leves, a pasta ainda aguarda evidências científicas.

“Se ele [médico] quiser comunicar o paciente dele, ‘não tenho nenhuma evidência, acho que poderia usar medicado com tal risco’ e se responsabilizar individualmente, nada tem de óbice [impedimento]”, disse. “Para que nós possamos no Ministério da Saúde dizer que se recomenda [amplamente], precisamos de um pouco mais de tempo para saber se isso pode se confirmar numa coisa boa ou ter efeito colateral. Não é questão de gostar de A, B ou C. É simplesmente analisar com um pouco mais de luz”, completou o democrata.

A pasta informou que acompanha 9 ensaios clínicos sobre tratamento de pacientes com covid-19 envolvendo mais de 100 centros de pesquisas, como universidades e hospitais, e 5 mil pacientes. A expectativa é que resultados preliminares sejam divulgados a partir de 20 de abril, o que pode permitir uma ampliação do uso de medicamentos.

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