sexta-feira, abril 17, 2020

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O trio de sanitaristas que está deixando combate à pandemia no Brasil por divergências com Bolsonaro.


Wanderson Oliveira, Luiz Henrique Mandetta e João Gabbardo: trio que comanda Ministério da Saúde

"A vigilância em saúde no Brasil não é feita de personalidade. Não é o Wanderson. São milhares de sanitaristas em todo o Brasil", diz secretário que pediu demissão — rejeitada pelo ministro.

A entrevista coletiva da cúpula do Ministério da Saúde teve tom de despedida nesta quarta-feira (15). O trio Luiz Henrique Mandetta, João Gabbardo e Wanderson Oliveira deixou claro que a saída de todos é iminente e que vão ajudar na transição para um novo ministro, que deve ser escolhido nas próximas horas pelo presidente Jair Bolsonaro. “Se entrar hoje uma pessoa no Ministério da Saúde, está tranquilo para trabalhar”, disse Mandetta.

De acordo com o ministro, há ordens de compra de material encaminhadas para o combate ao novo coronavírus, estados e municípios receberam recursos e linhas de pesquisa estão financiadas. Mandetta afirmou, por outro lado, que é necessário comprar mais respiradores para os hospitais, EPIs (equipamentos de proteção individual) e melhorar o treinamento de profissionais de saúde para reduzir o número de infectados e mortos nesse grupo.

Na visão do ministro, a pasta conseguiu “domar a curva” de infectados e mortos pela covid-19 graças às medidas de isolamento adotadas por estados e municípios tão logo a pandemia foi decretada pela OMS (Organização Mundial da Saúde). Ele também lembrou que o trabalho das autoridades sanitárias no Brasil foi elogiado pelo Banco Mundial e pela OMS.

As restrições na circulação de pessoas são principal objeto de divergência entre Bolsonaro e o Ministério da Saúde. O presidente é favorável ao isolamento vertical, com o confinamento apenas dos grupos de risco para covid-19, como idosos e pessoas com doenças crônicas. O ministro defende isolamento social para maior parte da população do País.

Sobre o discurso anticiência de Bolsonaro, Mandetta afirmou que as ações baseadas em evidências científicas são o caminho que tem a oferecer. “Fora desse caminho, tem de achar alternativas”, disse. “Parece que eu sou contra o presidente ou o presidente é contra mim. não. São visões diferentes do mesmo problema. Não é um problema maniqueísta”, completou.

Secretário-executivo do ministério, João Gabbardo afirmou que conheceu Mandetta em dezembro de 2018, na época do governo de transição, quando recebeu o convite para ser o número 2 da pasta. Ele afirmou que deixará o governo com a saída do democrata. “Ano que vem completo 40 anos de Ministério da Saúde e não vou jogar no lixo meu patrimônio”, ressaltou.

Gabbardo prometeu, contudo, orientar uma eventual nova equipe, durante a transição. “Não vou abandonar o barco. Vou ficar no Ministério da Saúde durante todo o tempo necessário para fazer a transição porque tenho consciência de que a população espera uma continuidade desse trabalho”, disse.

"Não podemos por qualquer prazo interromper isso, nem que seja por duas ou três semanas. Pode ser muito significativo o resultado dessa descontinuidade."

-João Gabbardo

Wanderson Oliveira também relembrou como chegou ao cargo de secretário, com um telefonema de Mandetta em 28 de dezembro de 2018. “Ficamos 40 minutos no telefone e parece que a gente já se conhecia”, contou. No dia seguinte, foi à casa do democrata, onde conheceu pessoalmente Gabbardo.

O epidemiologista lembrou que sentiu “simpatia, respeito e admiração pelo ministro Mandetta desde o primeiro momento”. Em um recado de despedida, pediu à população para ter cuidados básicos, como lavar às mãos e ficar em casa, se possível. “Se a gente fizer o básico, nós vamos segurar essa epidemia”, disse. “Esperamos que a gente consiga salvar o maior número de vidas possível”, completou.

Sempre sereno e de postura conciliadora, Wanderson acabou dando uma cutucada no presidente Bolsonaro, que trava uma guerra fria com o Ministério da Saúde nas últimas semanas.

"A vigilância [em saúde] no Brasil não é feita de personalidade. Não é o Wanderson. São milhares de sanitaristas em todo o Brasil."

Além do isolamento social, outro ponto de dissenso entre Bolsonaro e a equipe de Mandetta é o uso da cloroquina. O presidente insiste no uso do remédio para covid-19 mesmo sem comprovação científica, enquanto o Ministério da Saúde resiste a recomendar uso amplo para infectados.

Subnotificação de casos de coronavírus gera temor de catástrofe no Brasil.


Paciente infectado com o novo coronavírus recebe tratamento na Unidade de Terapia Intensiva do Hospital de Clínicas, em Porto Alegre, Brasil, em 15 de abril de 2020


O número de casos do novo coronavírus no Brasil é 15 vezes superior às cifras oficiais, segundo pesquisadores que estimam que os contágios passem de 300.000 pessoas e temem uma catástrofe nas próximas semanas.

O Brasil é o país da América Latina mais afetado pela pandemia, que chegou aqui mais tarde do que na Ásia e na Europa. No último balanço, as autoridades registraram 1.736 mortos. O pico de contágios é esperado a partir de maio.

Segundo estimativas do grupo Covid-19 Brasil, um coletivo de pesquisadores universitários, no país de 210 milhões de habitantes havia 313.288 casos no sábado passado: 15 vezes mais do que os 20.727 casos confirmados anunciados pelo Ministério da Saúde.


 Médico mostra um kit rápido de teste de sangue de COVID-19 em uma clínica na favela da Rocinha, Rio de Janeiro, Brasil, em 15 de abril de 2020

A razão para esta enorme diferença no país de dimensões continentais é que a taxa de detecção é muito inferior à de outros países afetados pelo vírus.

No Brasil, a proporção é de 296 pessoas avaliadas por milhão, uma cifra insignificante em comparação com Alemanha (15.730), França (5.114) e Irã (3.421).

"O Brasil está em uma posição ruim em relação a outros países que aumentaram o número de testes à medida que a epidemia foi se instalando. Só vamos tomar mão dessa epidemia se fizer testagem em massa", lamenta, em declarações à AFP, Domingos Alves, membro do grupo COVID-19 Brasil e chefe do Laboratório de Inteligência em Saúde (LIS) da Universidade de São Paulo (USP).


 Vista aérea mostrando um grande número de ônibus estacionados devido à queda no movimento de passageiros causada pelo novo coronavírus em Curitiba

Alves também critica a lentidão dos resultados dos testes, o que leva muitas famílias a enterrarem seus entes queridos sem ter a confirmação da causa da morte.

Segundo ele, os números oficiais mostram onde a epidemia esteve há uma ou duas semanas.

A preocupação é compartilhada pelas autoridades, obrigadas a improvisar à espera dos pedidos de testes, retardados pelo auge de demandas globais.

"Sabemos que 85% dos casos assintomáticos nós nunca vamos detectar", admitiu na semana passada o secretário de Vigilância em Saúde do Ministério, Wanderson de Oliveira.

"Alertar a população"

Nos hospitais públicos, as instruções são claras: apenas os casos graves devem ser submetidos a testes.

"Atualmente, não se fazem testes para pacientes que não vão ser internados", disse à AFP Fred Nicacio, médico de emergência em Bauru, interior de São Paulo.

"Para pacientes com suspeita, é preciso pedir isolamento social por escrito. Isolamento por duas semanas. Há uma infinidade de pacientes que não estão em estado grave, mas são positivos. Não são contabilizados porque não são testados", acrescenta.

Para Domingos Alves, os cálculos do grupo COVID-19 Brasil servem para alertar a população sobre a real dimensão da pandemia, pois algumas pessoas tendem a baixar a guarda.

A situação se complica ainda mais pelo fato de que o presidente Jair Bolsonaro tem criticado as medidas de confinamento adotadas pelos governadores em quase todos os estados do país.

"Se as pessoas continuarem saindo às ruas, veremos cenas como em Guayaquil, no Equador, com pessoas morrendo em casa e corpos abandonados na rua. Em Manaus, os hospitais já estão à beira do colapso", enfatiza.

Testes produzidos localmente

Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan, que coordena os testes no estado de São Paulo, o mais afetado pela pandemia no Brasil, admite que os casos ultrapassam as cifras oficiais.

"Nós estamos olhando pelo retrovisor. Nós temos que olhar para o visor dianteiro do carro e ver o que vem pela frente. Nas próximas duas ou três semanas, vamos conhecer exatamente o tamanho dessa epidemia. Estamos no começo dela e vamos saber se vamos encontrar um Everest pela frente, ou um monte mais suave", explicou na semana passada, durante uma coletiva de imprensa.

Para ter números próximos da realidade, ele confia na chegada de 1,3 milhão de testes importados da Coreia do Sul, dos quais 725.000 foram entregues na terça.

"Embora tenhamos laboratórios muito bem equipados, ainda dependemos de insumos importados. Precisamos ter cada vez mais metodologias, insumos, produtos nacionais, fabricados no Brasil, para atender rapidamente a demanda", disse à AFP Rejane Grotto, chefe de um laboratório da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp).

Um desafio importante em vista dos sucessivos cortes orçamentários para a pesquisa nos últimos anos.

Algumas universidades recorreram ao apoio financeiro de empresas de tecnologia e inclusive a campanhas de arrecadação de fundos pela Internet para desenvolver projetos de testes produzidos localmente.

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