terça-feira, junho 02, 2020

HOMOSSEXUALIDADE

Como contar que sou gay para uma família religiosa.



É hora de sentar, respirar fundo e chamar os seus pais para aquela que talvez seja a conversa mais importante da sua vida.

Você está prestes a compartilhar algo extremamente pessoal – e que está diretamente conectado com o seus objetivos, seus desejos, seu futuro.

Absolutamente tudo será influenciado por isso a partir de agora. Muita coisa vai mudar. E para melhor!

Você será mais verdadeiro consigo mesmo. Mais completo. Mais feliz.

Só que papai e mamãe entendem que Deus vê isso como um pecado, e que vai rejeitar você por ser mais feliz…

… o que é completamente irônico! 

Ok, já chegaremos nesse ponto.

Antes de mais nada, lembre-se que:

Jesus também te ama!

Sim!

O fundador da religião dos seus pais pregou a inclusão dos marginalizados. O respeito. O amor ao próximo.

Sabendo só isso, você já não deveria se sentir condenado.

Aliás, não há na Bíblia, nenhuma só vez, as palavras homossexual, gay, nem homossexualismo. Se alguma versão usa essas expressões, está mal traduzida.

Até porque, óbvio, naquela época, nem existiam essas palavras. O que existia, sim – e muito antes da bíblia ser escrita – era o amor entre pessoas do mesmo sexo.

Documentos egípcios de 500 anos antes de Abraão, que revelam o homoerotismo não só entre homens, mas também entre os deuses Horus e Seth, tão aí para provar que o homossexualismo é tão antigo como a própria humanidade.

Claro que, ainda que sem denominação, ato de um homem ter relações sexuais com outro homem é considerado uma abominação segundo sugerem algumas passagens da bíblia.

Mesmo assim, até mesmo alguns sacerdotes católicos e evangélicos, baseados na interpretação do próprio livro sagrado, acreditam que ser gay não é um pecado.

Para eles, a mensagem de Jesus era de inclusão. E que, se fosse hoje que viesse à Terra, o filho de Deus teria recebido os homossexuais de braços abertos.

O famoso bispo Edir Macedo, fundador e atual líder espiritual da Igreja Universal do Reino de Deus, é um exemplo:

“Há muitos crentes, pastores e igrejas levantando uma bandeira contra o movimento gay, contra o casamento homossexual, contra lésbicas e etc. Eu me pergunto: Jesus faria isso se estivesse vivendo no nosso tempo? Eu não creio que ele faria, porque no tempo dele já havia homossexuais muito menos levantou uma bandeira contra o movimento.”, disse recentemente em uma entrevista.

Ora, é claro que ele tem razão!

Sei que para você talvez seja difícil desconstruir tudo que aprendeu e entendeu como certo desde cedo. Mas entenda que a razão de existir de uma religião é (ou pelo menos deveria ser) unir. Incluir. Respeitar. E nunca segregar.

Amar não é, nem nunca será, um pecado

Se alguém algum dia apontar o dedo na sua cara, dizendo que você é uma abominação, simplesmente responda que abominação é deixar de ser quem é.

Amar não é, nem nunca será, um pecado. E, mesmo se fosse, não seria razão para uma rejeição.

No novo testamento, há várias passagens que demonstram a pregação de Jesus pelo perdão. Muitas mais que o clássico “quem nunca pecou que atire a primeira pedra”.

Isso quer dizer que, por mais que você tenha crescido escutando o contrário, orientação sexual não é o que vai definir a sua salvação no julgamento final.

Aliás, eu bem acho que, se jesus estivesse aqui hoje, ia querer um céu tão colorido como a bandeira GLBT. Um céu que celebrasse a diversidade e considerasse lindas todas as formas de amor. Tanto que a “elite religiosa” iria preferir outro lugar para“esticar as botas”…

O maior argumento para se comprovar que as escrituras sagradas não condenam o amor entre pessoas do mesmo sexo é o fato de que Jesus Cristo nunca falou alguma palavra contra os homossexuais. Se o homossexualismo fosse uma coisa tão abominável assim, certamente o filho de Deus teria incluído esse tema em sua mensagem.

O que Jesus condenou, sim, foi a dureza do coração, a hipocrisia, a crueldade.

Na boa, pecado é aceitar os mecanismos de exclusão e selecionar seres humanos por fatores biológicos, raciais, étnicos ou sexuais….

Todos somos filhos amados por Deus. Todos temos como vocação essencial amar e ser amados.

7 passos para ter essa conversa da melhor forma:

As mesmas recomendações já ditas anteriormente valem aqui também: escolher momento e local apropriados, não se assumir durante uma briga, ser simples ao falar e etc.

Mas, no caso de famílias extremamente religiosas e preconceituosas, é necessário ter mais cautela e, principalmente, mais certeza de que sair do armário é mesmo a melhor decisão.

Caso ainda esteja em dúvida, volte ao capítulo anterior e avalie, mais uma vez, os riscos e problemas que esse passo pode te trazer.

Se você já está decidido, aqui o que precisa fazer:

#1. ESTEJA PREPARADO PARA REAÇÕES DE RAIVA

Como seus pais são muito devotos às crenças religiosas, dificilmente vão sorrir e dizer: “Que boa notícia! Fico muito feliz por você!”.

Você, provavelmente, terá que lidar com reações pouco receptivas, portanto, já vá se preparando.

Poderá ter gritaria, raiva, palavras bem duras de se escutar. Ou poderá ter um silêncio mais duro ainda… e isso tudo faz parte do processo.  Saber disso vai ajudá-lo a se manter calmo e consciente.

Não há problema em chorar, mas você deve sempre se manter firme. Se eles acharem que você tem dúvidas, eles irão ter a esperança de que você pode “mudar”.

#2. NÃO FRAQUEJE, MAS SEJA COMPREENSIVO

Aliás, seus pais, provavelmente, vão tentar convencê-lo de buscar a “cura” e voltar atrás no que acabou de dizer. Você deverá se manter firme e tranquilo na sua decisão. Em vez de perder a cabeça e deixar que as coisas saiam do controle, fique calmo para ajudá-los a se acalmarem também.

“Mãe, pai… Eu sei que vocês estão chateados. Eu fiquei confuso por muito tempo. Mas agora eu sei quem eu sou. Eu considerei tudo o que vocês estão falando. De verdade. Eu pensei muito, mas nada disso me fez ser hétero.”

Entenda a preocupação deles, mas deixe claro que isso não é uma “fase” e que não existe um homem que te “enfeitiçou” e seja responsável por “essa merda toda”. Assegure-se de que eles entendam que você está completamente consciente de quem é e do que está fazendo.

Dar-lhes uma falsa esperança, além de ser cruel, faria com que todo o processo de aceitação fosse muito mais demorado.

#3. EDUQUE-OS COM BASE NA BÍBLIA

É bem provável que eles citem versículos da bíblia para argumentar que você está fazendo algo terrível com a sua vida.  Eles vão se apoiar na religião, logo você precisa responder com base nela também.

Diga aos seus pais que eles devem pensar como Jesus:

Seguidores de Jesus não rejeitam ninguém. Aceitam a todos como são, independente de cor, classe social, orientação sexual.

Seguidores de Jesus deixam o diferente existir, porque não importam as diferenças, no fim do dia todos são iguais perante Deus.

Pesquise e preveja o que eles poderão falar para não ser pego de surpresa. A última coisa da qual você precisa nesse momento é dar a impressão de que isso tudo é apenas um impulso. Eles devem perceber que você pensou muito e até mesmo considerou as objeções religiosas.

#4. SE A CONVERSA FICAR MUITO TENSA, SAIA DE CENA

Apenas diga:

“Já vi que não vamos entrar em acordo hoje. Tudo bem. Eu também não me aceitei do dia para noite. Vai ser melhor se a gente conversar de novo depois. Eu amo vocês, mas vou deixá-los processar tudo isso.”

#.5 TENHA EMPATIA

Lembre-se de que esse é o dia 1 dos seus pais.

Você demorou meses, talvez até anos, para reconhecer, processar e lidar com sua orientação sexual.

Entenda que talvez os seus pais precisem desse mesmo tempo (ou até mais, já que são muito religiosos).

Não será fácil. Eles vão encontrar dificuldades para assimilar e aceitar essa novidade.  Por isso, não espere que as coisas se resolvam do dia para a noite.

#6. PROCURE UMA IGREJA SIMPATIZANTE

Se sua igreja não aceita homossexuais, não desista da sua fé.

Hoje em dia, já há diversas igrejas inclusivas que abraçam a todos os fieis, independente de orientação sexual. Nelas, você poderá buscar ajuda, mesmo se não for aos cultos regularmente.

Se isso não for possível onde você mora, procure grupos de apoio on-line.

E se a minha família não me aceitar?

Infelizmente, você não tem o poder de fazer a sua família te aceitar. É algo que está fora do seu controle.

Mas o que, sim, você pode – e deve – fazer é controlar a maneira que você vai reagir e lidar com a não aceitação da sua família.

Desista de mudar os pensamentos e atitudes dos outros. Mude os seus. EMPODERE-SE e esteja blindado a tudo aquilo que não corresponde às suas verdades.

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