sexta-feira, julho 10, 2020

DIREITOS

‘Máscara é coisa de viado, sim’: A reação do movimento LGBT à fala de Bolsonaro.




Em resposta à fala do presidente, movimento LGBT reagiu publicando fotos usando máscaras com a hashtag #CoisadeViado.

Mesmo com o aumento de casos de covid-19 e dos mais de 65 mil mortos pela doença no País, o presidente Jair Bolsonaro debochava de métodos de proteção nos bastidores do Palácio do Planalto, chegando a constranger funcionários e classificando o uso de máscaras como “coisa de viado”.

As informações são da jornalista Mônica Bergamo, do jornal Folha de S. Paulo. Segundo a coluna, pessoas que estiveram com o presidente recentemente relataram momentos de tensão e disseram que Bolsonaro se recusa a usar máscaras em visitas feitas a ele, se aproxima dos visitantes e os cumprimenta com um aperto de mão, desrespeitando assim o distanciamento social. 

O presidente está sendo criticado pelo movimento LGBT por usar linguagem homofóbica para zombar do uso do equipamento de proteção. Nas redes sociais, a declaração atribuída ao presidente provocou debate sobre homofobia e padrões de masculinidade, além da hashtag #CoisadeViado.



Presidente Bolsonaro utiliza máscara de forma inadequada em evento no Planalto. O uso é individual e deve-se evitar tocar nos olhos, nariz e boca.

Bolsonaro, que tem histórico de declarações consideradas discriminatórias contra a população LGBT, teria ainda dito a um dos visitantes que o “medo” que ele disse ter da contaminação era “besteira”. Comentários associando o uso de máscaras à sexualidade, em tom pejorativo, teriam sido feitos a funcionários. 

Bolsonaro, que já classificou a doença como uma “gripezinha” em pronunciamento em rede nacional, foi diagnosticado com novo coronavírus nesta terça-feira (7). O mandatário disse que sentiu dores no corpo, cansaço e febre de 38ºC, e que lhe foi receitada hidroxicloroquina com azitromicina.

A reação da comunidade LGBT e as discussões sobre homofobia

“Tem toda razão, presidente. Máscara é coisa de viado. De viado inteligente. De viado preocupado com segurança e a saúde do próximo. De viado que não acha que vai ser menos macho por seguir recomendações de saúde”, escreveu o jornalista Fernando Oliveira, no Twitter, ao criticar a fala do presidente.

Tem toda razão, presidente. Máscara é coisa de viado. De viado inteligente. De viado preocupado com segurança e a saúde do próximo. De viado que não acha que vai ser menos macho por seguir recomendações de saúde. Sejamos todos viados e salvemos vidas! Pq o governo ta longe disso! 


https://t.co/PyjZm7AhKWpic.twitter.com/RwU18bG5Su
— Fernando Oliveira (@fefito) July 8, 2020


É engraçadíssimo que as coisas ditas "de viado" são sempre algo positivo: cuidar da saúde, estudar, demonstrar compaixão. Deus me livre ser hetero então. 🙃🏳️‍🌈
— Paulo Roberto Netto (@paulorobnetto) July 8, 2020


Sabe o que é coisa de viado, presidente? É ter orgulho de ser quem a gente é. É ter coragem de seguir em frente. É amar, é construir família, é sobreviver com dignidade e alegria no coração, apesar de pessoas como o senhor. https://t.co/GinZpQPp5M
— Thiago Theodoro (@thiwitter) July 8, 2020


Além de críticas, o debate sobre homofobia e padrões de masculinidade veio à tona nas redes sociais, mostrando o quanto cuidados com a saúde de modo geral e, também durante a pandemia, são vistos como “fragilidade”.

A máscara afeta a masculinidade. É assumir em corpo frágil. É reconhecer-se vulnerável. 

As tensões de Bolsonaro com a máscara são como o buraco da fechadura sobre a masculinidade tóxica.
— Debora Diniz (@Debora_D_Diniz) July 8, 2020

Bolsonaro não é o único homem que acredita que precisa atestar sua virilidade botando a si e outros em risco, descuidando da saúde e rejeitando medidas de segurança sanitária. Ele é só a vitrine de uma masculinidade violenta e ignorante mais próxima de nós do que queremos admitir
— Lucas Bulgarelli (@lucasbulgar) July 8, 2020

O PR disse que usar máscara é coisa de viado. Vale discutir essa masculinidade q se propõe a 1)arriscar a própria saúde para provar ser viril, 2) arriscar a saúde das outras pessoas para provar ser viril, 3)sugerir que a sexualidade das pessoas as torna frágil.
— Bernardo F Machado (@befmachado) July 8, 2020

Pesquisa realizada pela Universidade de Middlesex, no Reino Unido, em parceria com o Instituto de Pesquisa em Ciências Matemáticas, nos Estados Unidos, mostra que mesmo que seja comum homens e mulheres deixarem de usar a proteção durante a crise, eles podem resistir mais ao uso do que elas.

Este comportamento masculino de não usar máscara, segundo os pesquisadores, estaria relacionado a uma postura mais ampla diante de questões de saúde. Homens são condicionados a serem durões e não sabem lidar com a fragilidade, medo ou preocupação diante de problemas de saúde - tanto sua, quanto dos outros -, o que explicaria a resistência ao uso.

Entre os líderes mundiais, não é apenas Bolsonaro que pensa dessa forma. Em maio, Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, afirmou que não usaria máscaras de proteção em público por receio de “parecer ridículo” e que isso poderia passar uma “mensagem errada” para seus eleitores.  

‘Máscara é coisa de viado, sim’, protestam LGBTs.

A fala do presidente também está sendo ressignificada na hashtag #coisadeviado. Nela, pessoas LGBTs estão publicando fotos usando máscaras de forma correta, seguindo orientações tanto do Ministério da Saúde, quanto da OMS (Organização Mundial da Saúde) para conter a crise sanitária.

A drag queen e Youtuber Lorelay Fox convocou mais “viadinhes” para compartilhar imagens usando máscara durante a pandemia: 


Hey viadinhes! Deixe aqui sua foto usando sua máscara #coisadeviadopic.twitter.com/jD7tDYHwnI
— Lorelay Fox (@Lorelay_Fox) July 8, 2020


A viada tá aqui no plantão se arriscando. #coisadeviadopic.twitter.com/mrKBi8oYJ6
— Mikaela (@Mikaelapecrusi) July 8, 2020


Acho elogio falar que usar máscara é coisa de viado. Aqui to seguindo a tradição. #coisadeviadopic.twitter.com/CVP06XmEQ3
— Caio Gregori (@CaioGregori) July 8, 2020


Coisa de viado consciente que se preocupa não só com a sua saúde, mas com a saúde de todos que estão ao seu redor.


🌈#CoisaDeViado 🌈 pic.twitter.com/HwewoS587g
— Sagiotário ♐ (@marinho_hary) July 8, 2020


Em resposta à fala do presidente divulgada pela Folha, a organização Aliança Nacional LGBTI+ também lançou a campanha nas redes sociais batizada de “Usar máscara também é coisa de viado. Para proteger você e a todos”. 

Já a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), divulgou a campanha “Não é só coisa de viado... travesti também usa! Não faz a bobinha, use máscara!”

O uso de máscaras é medida importante durante a pandemia.


De acordo com os pesquisadores, o SARS-CoV-2 é transmitido por partículas de saliva, que ficam no ar.

A máscara é uma barreira física contra a contaminação. As mais eficazes são a cirúrgica ou a N95, mas como a prioridade de uso desses equipamentos é para profissionais de saúde, as pessoas comuns podem usar máscaras caseiras, de tecido. 

Elas devem ser usadas todas as vezes em que for preciso sair de casa. É necessário que a máscara tenha pelo menos duas camadas de pano, que cubra totalmente a boca e nariz e que esteja bem ajustada ao rosto, sem deixar espaços nas laterais. O uso é individual e deve-se evitar tocar nos olhos, nariz e boca.

O Ministério da Saúde publicou um vídeo em abril com orientações de como fazer a máscara de proteção caseira de forma segura, além de disponibilizar um link com protocolos de como manusear e limpar o acessório corretamente.

A recomendação da pasta é que a máscara pode ser usada até ficar úmida. Por isso, o ideal é ter uma limpa para usar a cada duas horas. Caso a pessoa espirre ou tussa, também é preciso trocar. Chegando em casa, lave as máscaras usadas com água sanitária. É preciso deixa de molho por cerca de 30 minutos. 

Em 3 de julho, o presidente Jair Bolsonaro sancionou uma lei que obriga o uso de máscara no transporte público coletivo e privado (como aplicativos e táxis), mas vetou a obrigatoriedade no comércio, em escolas, igrejas e templos. É possível que o Congresso derrube o veto.

Apesar da decisão do presidente, em abril, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que as medidas do governo federal não interferem na competência dos estados e municípios. Isso significa que o cidadão deve seguir o que está determinado no local onde mora, especialmente se as regras forem mais rígidas.

Em uma carta aberta à OMS, 239 cientistas de 32 países citaram evidências de que o vírus permanece no ar em ambientes fechados, infectando as pessoas nas proximidades. De acordo com os pesquisadores, o SARS-CoV-2 é transmitido por partículas menores de saliva, que ficam no ar. Esse entendimento reforça a importância de usar máscara em locais fechados, como comércios e igrejas.

Anvisa revoga decisão que impedia doação de sangue por homens gays.


Medida foi publicada exatos dois meses após o STF derrubar restrições à população LGBT no momento da doação.

A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) revogou, nesta quarta-feira (8), artigo presente em resolução que impedia a doação de sangue por homens gays no País. A medida foi publicada no Diário Oficial da União exatos dois meses após término do julgamento do STF (Supremo Tribunal Federal), que considerou o trecho inconstitucional.

Documento publicado pela agência afirma que será distribuída uma “orientação técnica a respeito do gerenciamento dos riscos sanitários e das responsabilidades” dos hemocentros públicos e privados de todo o Brasil. 

Esta orientação é imprescindível não só para hospitais e bancos de sangue alterem formulários e procedimentos padrão, mas para que funcionários apliquem na prática a decisão do STF no atendimento. Nesse sentido, a pergunta sobre orientação sexual e se o potencial doador “faz sexo com homens” deve ser retirada de questionários no momento da triagem. 

A agência informa também que, “após a decisão do STF e mesmo antes de qualquer comunicação oficial, o órgão iniciou imediatamente a articulação de ações para promover o cumprimento da medida”. 

Tanto portaria do Ministério da Saúde, publicada em 2014, quanto esta resolução da Anvisa, de 2016, afirmavam que “indivíduos do sexo masculino que tiveram relações sexuais com outros indivíduos do mesmo sexo e/ou as parceiras sexuais destes” eram inaptos à doação pelo período de 12 meses. 

O julgamento, considerado histórico, chegou ao fim no dia 8 de maio e decidiu que é discriminatório impor restrições a homens que fazem sexo com homens (HSHs) no momento da doação. Os órgãos foram notificados pela corte, e a decisão passou a valer a partir de sua publicação, no dia 22 de maio. 

Porém, um mês após o fim do julgamento, hemocentros de todo o País ainda estavam rejeitando doações deste grupo por orientação da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), reiterada pelo ministério. No dia 14 de maio, a agência orientou os bancos de sangue que a regra deveria ser mantida até a publicação do acórdão e ‘encerramento definitivo’ do julgamento.


“São 20 anos de luta. Nós estamos muito felizes”, comemorou Toni Reis, diretor-presidente da Aliança Nacional LGBT ao HuffPost.

Nesse contexto, entidades do movimento LGBT e o partido Cidadania entraram com um pedido junto ao Supremo para que a decisão fosse cumprida.

Para a ABGLT, esta orientação e a demora em adequar os documentos à decisão do STF é um “verdadeiro desafio” aos ministros, “por puro e simples inconformismo” do governo federal e de seus órgãos “pretensamente técnicos”. 

Após pressão, o Ministério da Saúde emitiu documento no dia 15 de junho em que orienta gestores estaduais do SUS (Sistema Único de Saúde) para que “homens que fazem sexo com homens” sejam considerados aptos a doar.

“São 20 anos de luta. Nós estamos muito felizes”, comemorou à época Toni Reis, diretor-presidente da Aliança Nacional LGBT e membro do Grupo Dignidade, responsável pelas campanhas “Igualdade na Veia”, de 2017 e “Equal Blood”, de 2020. 

Segundo Toni, a partir de agora, todas as pessoas que se sentem representadas na sigla LGBT podem se sentir aptas a exercer um ato de cidadania. “Foi algo muito importante para tirar o estigma da nossa população. É uma batalha que nós ganhamos contra a LGBTfobia”, disse ao HuffPost.

Agora foi a vez da Anvisa se adequar à decisão. Caso a população LGBT tenha dificuldades e seja barrada no momento da doação, a Aliança Nacional LGBT+ disponibilizou a “Central de Denúncias LGBTI+”, para que violações deste direito sejam registradas.

O que o STF decidiu sobre doação de sangue por homens gays



Outros países ao redor do mundo, diante do aumento de casos da covid-19, também alteraram as regras de doação.

Homens que fazem sexo com homens podem doar sangue no Brasil. Por 7 votos a 4, o STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu que considerar este grupo inapto a doar sangue ou impor restrições por um período de tempo é inconstitucional. O julgamento, considerado histórico, foi iniciado em 2017 e chegou ao fim no dia 8 de maio, em sessão realizada no Plenário Virtual. 

Em seu texto, a ADI (Ação Direta de Inconstitucionalidade) 5543, que foi analisada pela corte, diz que as regras dão “absurdo tratamento discriminatório por parte do Poder Público em função da orientação sexual, o que ofende a dignidade dos envolvidos e retira-lhes a possibilidade de exercer a solidariedade humana com a doação sanguínea”.

O ministro Edson Fachin, relator do processo, em seu voto, já havia afirmado que as cláusulas existentes nos documentos colocam em xeque “direitos fundamentais de um determinado grupo social”.

Para Fachin, estas restrições são baseadas em orientação sexual e no gênero do candidato, enquanto o mais adequado é utilizar o conceito de “práticas de risco” dos indivíduos - que podem atingir toda a população, não apenas homens gays. Ele foi acompanhado por 7 dos 11 ministros da corte.

A decisão é considerada histórica porque, partir da decisão do STF, o governo brasileiro terá que tratar homens gays e bissexuais da mesma forma que homens heterossexuais ao doar sangue - assim como mulheres trans e travestis, que são tratadas pelo gênero masculino no momento da doação.

Com a crise provocada pelo surto do novo coronavírus, os hemocentros de todo País estão fazendo campanhas para receberem doações de sangue. Especialistas ouvidos pelo HuffPost, estimam que a decisão do STF pode chegar a abastecer hemocentros do País com até 1,5 milhão de litros de sangue por mês. No momento, eles operam com 40% da capacidade.

Outros países ao redor do mundo, diante do aumento de casos da covid-19, também alteraram as regras de doação visando o abastecimento dos estoques dos bancos de sangue, reduzidos devido à pandemia. Entre os que flexibilizaram estão Dinamarca, Austrália, Irlanda do Norte e Estados Unidos. 

Um comentário:

  1. Devo confessar com muita "vergonha" que na eleição passada eu votei neste cidadão para presidente do nosso Brasil.
    Se arrependimento matasse, eu com certeza estaria morto.
    Eu uso máscara, senhor Presidente!!!
    Quero preservar a minha saúde, e a de quem estiver ao meu redor.
    Deus me livre...
    Ter que cair num leito de hospital,
    com essa saúde pública caótica em nosso "País".

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