terça-feira, agosto 25, 2020

DIREITOS

Após ameaça de Bolsonaro, Maia e Gilmar defendem liberdade de imprensa.


O presidente Jair Bolsonaro ameçou o jornalista durante visita a uma feirinha de artesanato em Brasília

Lideranças do Congresso Nacional, dirigentes partidários e representantes do Poder Judiciário criticaram o presidente da República, Jair Bolsonaro, pela agressão verbal a um repórter do jornal O Globo. Nas manifestações, as autoridades consideraram a fala do presidente um atentado contra a liberdade de imprensa.

No domingo, 23, o presidente foi questionado pelo repórter sobre os depósitos de Fabrício Queiroz, ex-assessor do senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ), na conta da primeira-dama, Michelle Bolsonaro. Em resposta, Bolsonaro falou: "Vontade de encher sua boca de porrada".

O presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia, afirmou ao jornal O Globo que a liberdade de imprensa é um valor inegociável na democracia e disse esperar que o presidente "retome a postura mais moderada que vinha mantendo nos últimos 66 dias".

No Twitter, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Gilmar Mendes considerou "inadmissível" a censura de jornalistas pelo "mero descontentamento do conteúdo veiculado", pontuando que a liberdade de imprensa é uma das bases da democracia.

Líder da oposição no Senado, Randolfe Rodrigues (REDE-AP) afirmou que vai apresentar uma denúncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) sobre a violência contra a liberdade de expressão. Ele também repetiu a pergunta feita pelo repórter em suas redes sociais, marcando o presidente, aderindo a um movimento iniciado por jornalistas.

O líder do PSB na Câmara, o deputado federal Alessandro Molon, criticou Bolsonaro e afirmou que "o que se espera de um presidente é que ele se comporte à altura do cargo que ocupa". Molon ainda disse que as ameaças à imprensa são ameaças à própria democracia. "Além disso, Bolsonaro tenta esconder o que aos poucos está vindo à tona: seu envolvimento num esquema criminoso."

A deputada federal Natália Bonavides (PT-RN) afirmou ter protocolado no Supremo uma denúncia contra Bolsonaro por constrangimento ilegal pela ameaça. Ela também questionou o presidente sobre o depósito de Queiroz a Michelle e chamou o presidente de "delinquente contumaz".

Ex-presidente do Partido Novo, João Amoêdo também entrou na corrente e questionou o presidente sobre o pagamento de Queiroz a Michelle pelas redes sociais. Amoêdo também cobrou que "todos os mandatários e futuros candidatos" do partido questionassem o presidente. "Esse é o papel daqueles que desejam um País onde todos são iguais perante a lei", escreveu.

Pelas redes sociais, o MDB cobrou uma retratação do presidente da República ao repórter do jornal carioca. O partido também afirmou defender a liberdade de imprensa e o respeito aos jornalistas profissionais. Já o PSDB afirmou que o presidente "volta a mostrar apreço por posturas agressivas e antidemocráticas" e que a atitude não condiz com o cargo ocupado por Bolsonaro.

A cada 40 segundos, mil tweets perguntam: por que Michelle recebeu R$ 89 mil de Queiroz?


Confrontado com pergunta incômoda, presidente ameaça repórter de agressão física.

Reação agressiva mostra falta de respeito de Bolsonaro com transparência e prestação de contas inerentes ao cargo de presidente.

O ex-capitão Jair Bolsonaro mostrou neste domingo (23) que os 600 dias de governo foram insuficientes para ele entender as obrigações inerentes ao cargo de Presidente. 

Questionado por um repórter do jornal O Globo sobre depósitos feitos na conta de sua esposa, Michelle Bolsonaro, pelo ex-assessor de seu filho Flávio e seu amigo, Fabrício Queiroz, Bolsonaro abandonou o estilo moderado recém-adotado e voltou aos ataques. A resposta à incômoda pergunta foi uma ameaça: “Estou com vontade de encher a tua boca na porrada, tá?”.

Este tipo de resposta tem sido sistemática. Basta que ouça qualquer pergunta que não o agrade, Bolsonaro parte para ataque. Só no primeiro semestre deste ano, foram 53, segundo relatório da ONG Repórteres sem Fronteiras. O presidente já chegou ao ponto de atacar a imprensa para condenar um ataque contra a imprensa. 

Irritado com a repercussão de sua fala, nesta segunda (24), Bolsonaro criticou novamente a imprensa. Disse que jornalista com covid-19 tem mais chance de morrer por ser “bundão”. “O pessoal da imprensa vai para o deboche [na frase do histórico de atleta]. Mas quando [a covid] pega num bundão de vocês, a chance de sobreviver é menor. (…) [Jornalista] só sabe fazer maldade, usar caneta com maldade em grande parte. Tem exceções, como aqui o Alexandre Garcia. A chance de sobreviver é bem menor do que a minha.”

Como define a ONG Artigo 19, de defesa do direito à liberdade de expressão e acesso à informação, há “uma política de Estado de hostilidade à imprensa, já que é feita de maneira sistemática, regular, pelo próprio presidente”.

O mesmo jornalista que foi alvo neste domingo já havia sido no fim do ano passado. Ao questionar Bolsonaro sobre o que ele achava que deveria acontecer se o filho dele tivesse cometido algum deslize, Bolsonaro disparou: “Você tem uma cara de homossexual terrível. Nem por isso eu te acuso de ser homossexual. Se bem que não é crime ser homossexual”.

Na mesma entrevista, o repórter perguntou sobre o empréstimo que ele disse ter feito a Queiroz, e ele respondeu: “Porra rapaz, pergunta para sua mãe o comprovante que ela deu para o seu pai, tá certo? Pelo amor de Deus. Comprovante, querem comprovante de tudo”.

Sim, é preciso, comprovar, senhor presidente.

É preciso prestar contas. É preciso ser transparente. Além do comportamento hostil, há o ataque sistemático à transparência. Faz parte da atribuição do cargo prestar contas. Em vez de responder, o presidente acusou o sistema Globo de perseguição.

No Palácio do Planalto, o problema não foi visto pela ótica da incompatibilidade do cargo com a ameaça de agressão física e o desrespeito à transparência. O culpado para o ministro do Gabinete de Segurança Institucional (GSI), Augusto Heleno, segundo relato feito à coluna do Lauro Jardim, é a segurança. Isso, “bastaria que que a segurança afastasse Bolsonaro de jornalistas quando perguntas incômodas fossem feitas”.

A população continuaria, como já está, sem resposta. Pelo menos, podemos perguntar. Como insistir neste direito de questionar não custa, a rede social em que o presidente gosta de fazer anúncios foi invadida pela pergunta:

"Presidente @jairbolsonaro, por que sua esposa Michelle recebeu R$ 89 mil de Fabrício Queiroz?"

Um levantamento feito pelo pesquisador Fábio Malini, da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mostrou que a cada 40 segundos, foram gerados mil tweets com a pergunta. Foram mais de 1 milhão de mensagens únicas com o questionamento.

Bolsonaro também precisa esclarecer qual valor foi depositado por Queiroz a Michelle, se ele tinha conhecimento sobre o esquema de “rachadinha” e por que Queiroz estava no sítio do então advogado da família, Frederick Wassef, quando foi preso.

Há perguntas em aberto e nós, jornalistas, não vamos deixar de fazê-las.

Inclusive...



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