sexta-feira, setembro 04, 2020

HOMOSSEXUALIDADE

Gay enrustido.


Para o gay enrustido masculinizado que quer se assumir para a família e amigos é quase inevitável ter que verbalizar: “Sou gay”.


O gay enrustido muitas vezes não se identifica com o “gay afeminado”, aquele que normalmente é o personagem engraçado da novela, ou o “cabelereiro delicado”, ou aquele que frequenta o Shopping Frei Caneca sem receios de exibir a sua identidade, ou o “tipo Serginho do BBB”. Posso até afirmar que, muitos gays enrustidos que ainda se colocam, por exemplo, como bissexuais, acabam achando que não são gays pelo fato de não ter identificação nenhuma, ou pouco identificação com o esteriótipo do gay.
É importante reforçar para quem ainda não sacou: homossexualidade é caracterizado quando um indivíduo se atrai por outro do mesmo sexo. E ponto. Portanto, não existem homens heterossexuais que se envolvam por outros homens heterossexuais. Ser gay não quer dizer ser afeminado. O indivíduo pode não se identificar com os trejeitos, maneiras ou gírias, mas, se é atraído por outro do mesmo sexo, certamente é gay (ou bissexual).

Uma coisa que pouca gente sabe ou pensa a respeito é que gay enrustido, quando não é afeminado ou quando não tem nenhum trejeito que represente parte do esteriótipo, tem um desafio a mais para se assumir: precisa verbalizar, dizer, porque muitas vezes as pessoas não desconfiam. Heterossexual, no geral, é ainda um pouco desinformado: acha que para ser gay precisa ter trejeitos. E isso não é verdade faz um bom tempo. Para o universo heterossexual menos informado, a coisa de ser gay vem das mídias de massa, como a tevê. Mídias de massa trabalham com esteriótipo porque dá audiência.
Em outras palavras, o gay que segue o perfil mais esteriotipado, pelo simples modo de agir, falar ou gestualizar, acaba dando a dica que é gay, sem a necessidade de dizer: “então, eu sou gay”, a não ser que tenha necessidade de se auto-afirmar (o que não é difícil! rs).
(Que fique claro: existem gays enrustidos afeminados e masculinizados. Nem sempre o gay afeminado se dá conta que tem trejeitos e, se aceitar como gay, é “por dentro” e não pela aparência).

Existem diferenças nesses perfis e, consequentemente, existem preconceitos de um pelo outro também. (Isso, na verdade, é uma verdadeira bobagem pois, de fato, somos todos “farinha do mesmo saco”. 

Sou um gay assumido há praticamente uma década e tenho o perfil masculinizado. Afirmo, contando nos dedos, que para todas as pessoas, pais, irmão, colegas de trabalho e amigos, tive o dia derradeiro de chegar e pronunciar: “Então, eu sou gay, sabe?”. Penso que, quando afeminado, nos livramos do certo martírio de ter que verbalizar, ou verbalizar menos. Isso faz bastante diferença porque quando falamos, é como se estivéssemos documentando, “assinando o contrato” da realidade de ser gay. 

Acredito que o gay afeminado, enrustido ou não, pode evitar essas situações e, se enrustido, quando pronuncia para os amigos, possivelmente ouça algo do tipo: “Ah, mas isso eu já sabia!”. Diferente do “gay que não dá bandeira”, que ouve: “Ah, fala sério! Você está brincando!”. Passei por essas situações. Gay masculinizado e enrustido costuma “chocar” nesse sentido, pois as pessoas, em geral, não desconfiam. (Ouvi até uma amiga me falar sobre um tratamento religioso. Pode? 

Gay enrustido e masculinizado tem que ouvir amigos heterossexuais falarem da pegação com a mulherada, acaba participando de assuntos comuns do heterossexual esteriotipado – como futebol e carro – e na verdade isso é um PUTA SACO, com o perdão da palavra. Mais saco ainda é ter que ouvir do amigo coisas do tipo: “Você não cata a mulherada?”. O gay afeminado, certo ou errado, inibe esses tipos de assuntos e pode inibir com mais facilidade a “força” do heterossexual esteriotipado, que tende a sair de fininho.

Tenho visto muita polêmica em sites GLS, gays afeminados atacando os enrustidos masculinizados. Ora, ora… mais uma grande bobagem. Já vivemos em um mundo com bastante preconceito e discriminação para ver a própria classe, num tipo de “guerra civil de argumentos”, num esquema contra-contra. É importante mudar esses conceitos que, sinceramente, são bastante medíocres. Sem querer erguer a bandeira de defesa dos gays masculinizados, ter que definir verbalmente “sou gay” exige bastante pois essa afirmação acaba não sendo óbvia.

Ser gay enrustido, afeminado ou masculinizado, tem seus desafios de qualquer jeito. E, no final, é isso que pega.

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