terça-feira, novembro 17, 2020

POLÍTICA

 Sem provas, Bolsonaro coloca em xeque apuração das eleições; Mourão vê sistema 'sólido'.



BRASÍLIA - Depois de poucos dos seus candidatos apadrinhados terem tido sucesso nas eleições municipais, o presidente Jair Bolsonaro colocou em xeque, mais uma vez, a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro. Para apoiadores nesta segunda-feira, 16, o chefe do Executivo voltou a citar o uso do voto impresso ao justificar que é preciso um sistema que "não deixe dúvidas" ou "margem para suposições".

"Nós temos que ter um sistema de apuração que não deixe dúvidas. É só isso. Tem que ser confiável e rápido, não deixar margem para suposições", disse. Na sequência, Bolsonaro mencionou desconhecer o uso do sistema eleitoral brasileiro, apurado por meio de urna eletrônica, em outros países no mundo. Ao todo, contando com o Brasil, 46 países utilizam algum tipo de votação eletrônica em eleições, considerando pleitos de caráter nacional, regional, ou para escolha de dirigentes sindicais.
"Tenho proposta, tive né. O Supremo (Tribunal Federal) disse que é inconstitucional o voto impresso. (Mas) tem proposta de emendar a Constituição na Câmara. Se não tivermos uma forma confiável de apurar as eleições a dúvida sempre vai permanecer e nós devemos atender a população", disse.

O presidente disse que a demanda por mudanças no sistema eleitoral do País vem do "povo". "Muita gente fala, alguns falam, sem ouvir o povo, sem sair de seus gabinetes. No meu caso, estou sempre ouvindo a população. Eles querem um sistema de apuração que possa demorar um pouco mais, não tem problema nenhum, mas que seja garantido que o voto que essa pessoa deu vá para aquela pessoa realmente de fato. É só isso", declarou.

Bolsonaro disse, em março, que "brevemente" apresentaria provas de que houve uma "fraude" nas eleições de 2018, mas até agora não mostrou nenhuma evidência.

Nas eleições deste ano, houve lentidão na apuração de votos logo após o fim do pleito causada por um problema em processadores de um computador, segundo explicação do presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Luís Roberto Barroso. De acordo com o TSE, tradicionalmente a totalização de 100% dos votos só é concluída ao longo da segunda-feira seguinte à votação, com a contagem de votos de locais de difícil acesso.

Apesar da demora, Barroso tentou afastar as suspeitas sobre a possibilidade de se fraudar os resultados. Segundo ele, não é possível que haja fraude porque os resultados em cada urna são impressos em um boletim, ao final da votação, afixados na seção eleitoral e distribuídos aos partidos.

Mais cedo, o vice-presidente Hamilton Mourão, em mais um movimento contrário ao de Bolsonaro, havia comentado que o processo eleitoral brasileiro era "muito bom, sem dúvida nenhuma". Na semana passada, Bolsonaro já havia dito, sem provas, que o sistema de votação no Brasil não era "sólido" e que era "passível de fraude". Em declarações anteriores, Bolsonaro tem defendido a volta do voto impresso para o pleito de 2022.

Na conversa com apoiadores nesta segunda, Bolsonaro chegou a pedir desculpas por estar indisposto, após uma noite mal dormida, e se negou a gravar vídeos e mensagens com o grupo que o esperava em frente ao Palácio da Alvorada. "Peço, por favor, eu não quero gravar nada. Não estou passando bem hoje não, desculpa aí, fui dormir agora”, justificou. O presidente chegou ainda a responder um comentário de um apoiador que disse a região Norte "é muito sofrida".

"Você fala região sofrida, mas o povo de lá escolhe o seu destino", respondeu Bolsonaro. Em seguida, citou que São Paulo e Rio de Janeiro estão "decidindo seu destino", assim como Porto Alegre. Depois, Bolsonaro encerrou a conversa com a claque agradecendo e pedindo desculpas mais uma vez.

Os resultados de ontem, 15, mostraram que poucos candidatos apoiados pelo presidente foram eleitos ou chegaram ao segundo turno. Em São Paulo, Celso Russomanno, do Republicanos, ficou em quarto lugar e não chegou ao segundo turno. No Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, do Republicanos, teve Bolsonaro ao seu lado e está na corrida do segundo turno.

Em Porto Alegre, apesar de não ter candidato, Bolsonaro tem criticado o apoio dado a Manuela D'Ávila, do PCdoB, que disputará o segundo turno. Conforme o Estadão/Broadcast mostrou, apenas sete dos 45 candidatos a vereador que apareceram no “horário eleitoral gratuito” nas redes sociais do presidente foram eleitos. Entre os prefeitos, além de Crivella, apenas outro nome apoiado por Bolsonaro passou para o segundo turno, o Capitão Wagner (PROS), em Fortaleza.

São Paulo: PSOL cresce e PSDB perde assentos em Câmara com mandatos coletivos e vereadores trans.


O empresário Thammy Miranda.

Com uma taxa de renovação próxima do que foi obtido nas eleições passadas (38%), a Câmara Municipal terá dois vereadores trans na próxima legislatura, dois mandatos coletivos e a manutenção de antigos caciques. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou o nome dos 55 eleitos na manhã desta segunda-feira, 16. PT e PSDB perderam vagas, mas continuam sendo as maiores bancadas (com oito vereadores cada). O PSOL, partido do candidato Guilherme Boulos, foi o que mais cresceu, partindo dos 2 assentos atuais para 6 vereadores eleitos. Veja a lista completa dos eleitos em São Paulo.

Auxiliares do prefeito Bruno Covas (PSDB), que tenta a reeleição, já avaliavam um crescimento da bancada do PSOL por causa da campanha do adversário da legenda. O PSDB perdeu quatro cadeiras e passou de 12 para 8 vagas na próxima legislatura.

Os campeões de votos, mais uma vez, foram Eduardo Suplicy (PT), pela terceira vez o mais votado do País, e Milton Leite (DEM), aliado do prefeito Bruno Covas que teve a campanha para vereador mais cara do Brasil neste ano. Entre as novidades, há Erika Hilton (PSOL), primeira mulher trans eleita na cidade, e Thammy Miranda (PL), primeiro homem trans. Foram dois mandados coletivos, ambos do PSOL: Bancada Feminista e Quilombo Periférico. O número de mulheres eleitas foi recorde: 13.

Parlamentares antigos da casa, como José Police Neto (PSD), Soninha Francine (Cidadania) e Claudinho de Souza (Cidadania), não conseguiram se reeleger.

Embora o PT continue uma das maiores bancadas, o partido não conseguiu eleger nenhum nome novo e ainda perdeu a vaga do vereador Reis, que chegou a ser líder da bancada no ano passado.

O Novo, que tinha uma cadeira, com Janaína Lima, fez o segundo assento com a vereadora Cris Monteiro, apesar de o partido sofrer um revés com a candidatura de Filipe Sabará para a Prefeitura.

Pelo Republicanos, foi eleita a primeira vereadora abertamente bolsonarista na cidade, Soraia Fernandes. A Câmara paulistana já tinha um vereador com discurso de apoio a Jair Bolsonaro, com Rinaldo Digilio, mas o parlamentar não tinha o suporte direto do presidente. Soraia já chegou a participar das lives de Bolsonaro.

Fernando Holiday, do Movimento Brasil Livre (MBL), que possui mandato pelo Patriota, viu a bancada do partido triplicar. Na próxima legislatura, o partido de direita terá também Rubinho Nunes e outro youtuber, Marlon do Uber.

Dois herdeiros de vereadores históricos, George Hato (filho de Jooji Hato), do MDB, e Rodrigo Goulart (PSD), filho do vereador Goulart, que haviam obtido o primeiro mandato nas eleições passadas, conseguiram se reeleger.

E a Câmara terá também dois irmão que se ajudaram na política no passado mas, nas eleições, haviam se tornado rivais: Roberto Trípoli (PV) e Xexéu Trípoli (PSDB) conseguiram se eleger, ambos defendendo a causa animal e a sustentabilidade. O discurso de defesa animal foi também o que impulsionou Felipe Becari (PSD), um dos novos nomes na Casa.

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