sexta-feira, novembro 20, 2020

POLÍTICA

 Alto índice de reeleição e vitórias do DEM apontam para retorno ao centro.



Nas capitais, dos 13 candidatos à reeleição, 6 foram eleitos no primeiro turno e 6 vão ao segundo turno. Com eleição municipal, partidos tradicionais se fortalecem.

A expectativa de que o clima de renovação gerado com a eleição de 2018 fosse virar uma nova página na política brasileira não durou nem dois anos. Com a queda na popularidade do presidente Jair Bolsonaro, maior ícone dessa reorganização de forças, e os impactos da pandemia de coronavírus, o que se viu nas eleições municipais deste ano foi um retorno ao centro e fortalecimento de nomes tradicionais da velha política.
Considerando apenas as capitais, este primeiro turno teve como destaque o índice de reeleições — 6 de 13 candidatos já estão eleitos, outros 6 vão ao segundo turno —, além do fortalecimento de partidos como DEM e do PSDB. Embora não seja recomendado comparar as eleições municipais com as majoritárias porque este é um pleito local, há uma ressalva por causa da expectativa criada com a prevalência de novatos na eleição anterior. O cenário atual é praticamente oposto do que ocorreu em 2018, quando houve uma ascensão meteórica da “nova direita”, puxada especialmente pelo fenômeno PSL, partido pelo qual Bolsonaro se elegeu.

A sigla, que em 2018 cresceu mais de 500%, fez a segunda maior bancada na Câmara e elegeu 3 governadores na esteira do bolsonarismo, não levou nenhuma capital. Estrela do partido na eleição majoritária, a candidata à Prefeitura de São Paulo, Joice Hasselmann, teve 3 vezes menos votos do que conseguiu na eleição passada quando foi eleita deputada federal. Há dois anos, ela teve mais de 1 milhão de votos, sendo 289 mil na capital paulista. Neste domingo (15), teve 98 mil. 

Uma das explicações para o baixo desempenho do PSL é a queda na popularidade do presidente. Tanto que usar o nome de Bolsonaro como padrinho político não foi sinômino de crescimento nas urnas. Um exemplo é Celso Russomanno (Republicanos), candidato derrotado à Prefeitura de São Paulo. E nem mesmo pessoas diretamente ligadas a Bolsonaro se saíram bem, como a ex-mulher Rogéria Bolsonaro e a ex-funcionária Wal do Açaí, que usou nome Wal Bolsonaro ― ambas foram derrotadas.

O destaque, porém, ficou por conta de Carlos Bolsonaro (Republicanos), que foi reeleito vereador, mas perdeu o posto de mais votado. Ele teve 71 mil votos, uma redução de 34% na comparação com 2016, quando liderou a corrida e obteve 106 mil votos. Desta vez, Tarcísio Motta (PSol), que tinha sido o segundo mais votado em 2016, com 90 mil votos, foi o campeão de votos, com 86 mil.

Junto com a baixa no índice de aprovação de Bolsonaro, ruiu a tese da eficiência do “outsider”. Um dos fatores que levou a essa conjuntura foi o jeito como Bolsonaro lidou com a pandemia de coronavírus. Pesquisa Ibope divulgada em setembro mostrou que 3 em cada 10 pessoas acham que presidente é responsável pela situação da pandemia no Brasil, enquanto apenas uma pessoa em cada 10 culpa os governadores. O País é o terceiro com mais casos de covid-19 e o segundo com maior número de mortes.

Bolsonaro tem minimizado a doença. “Tudo agora é pandemia. Tem que acabar com esse negócio, pô. Lamento os mortos, lamento, mas todos nós vamos morrer um dia. Aqui, todo mundo vai morrer”, disse ele na última terça-feira (10). Ele também tem rivalizado com governadores, especialmente com o governador de São Paulo, João Doria, sobre o enfrentamento à crise sanitária.

A vez dos já conhecidos

As medidas que o País tem adotado para lidar com o vírus também estão entre os fatores que tiveram impacto no resultado apresentado neste domingo. Além de o pleito ter sido adiado de outubro para este mês, a campanha foi menor. Como o novo coronavírus se dissemina com o contato humano e com mais agilidade em aglomerações, os principais eventos de campanha, como comícios e caminhadas, foram afetados.

Especialistas ouvidos pelo HuffPost no início da campanha alertaram que o isolamento social beneficiaria os candidatos que já eram conhecidos e testariam a capacidade de fazer campanha pelas redes sociais.


O DEM levou 3 das 6 capitais com cenário definido no primeiro turno. São eles: Rafael Greca, em Curitiba; Gean Loureiro, em Florianópolis, e Bruno Reis, em Salvador.

“A campanha municipal, que geralmente é de muito corpo a corpo, eleitores muito próximos, está com mais limitações. Claro que está tendo evento na rua, mas não tem aglomeração. Basicamente o mundo digital ganhou muito mais tempo e recurso nas campanhas. E isso é um fenômeno global”, explicou ao HuffPost Maurício Moura, fundador do Instituto Idea Big Data e autor do livro A eleição disruptiva: Por que Bolsonaro venceu.

Essa análise ajuda a explicar a possibilidade de reeleição de quase todos os candidatos que estão tentando mais um mandato nas capitais. Dos 13, 6 foram eleitos no primeiro turno. São eles: Rafael Greca (DEM), Curitiba; Gean Loureiro (DEM), Florianópolis; Cinthia Ribeiro (PSDB), Palmas; Marquinhos Trad (PSD), Campo Grande; Álvaro Dias (PSDB), Natal; e Alexandre Kalil (PSD), Belo Horizonte.

Outros 6 estão no segundo turno. São os atuais prefeitos de Porto Velho, Rio Branco, Cuiabá, Aracaju, Rio de Janeiro e São Paulo. Apenas Nelson Marchezan Jr (PSDB), que tentava a reeleição em Porto Alegre, foi derrotado em primeiro turno. 

Além de ter levado duas capitais, o DEM conquistou a Prefeitura de Salvador, com a vitória de Bruno Reis, vencendo em 3 das 7 capitais que decidiram a eleição no primeiro turno. Há ainda possibilidade de resultado positivo para o partido no Rio de Janeiro, com Eduardo Paes que disputará contra o atual prefeito Marcelo Crivella (Republicanos), e em Macapá, que teve as eleições suspensas, mas tem Josiel Alcolumbre ― irmão do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM) ― entre os que estão na disputa. O PSDB, que já garantiu duas capitais, tem chances de levar mais duas no segundo turno, a de Teresina e a de São Paulo. 

Os dois partidos foram fundados nos anos 1980 e estão entre os mais tradicionais do País. O DEM hoje tem sob seu comando as presidências que compõem o Congresso, a da Câmara, com Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, com Davi Alcolumbre (DEM-SP) ― ambos estão na linha sucessória da Presidência. Já o PSDB governou o País por dois mandatos, com Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002. 

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