terça-feira, dezembro 01, 2020

POLÍTICA

 Como Bolsonaro sairá das eleições segundo governistas e oposição.



Políticos governistas e da oposição ouvidos pela Agência Pública avaliam que o presidente Jair Bolsonaro saiu do primeiro turno das eleições municipais deste ano fragilizado. O PSL, que cedeu a legenda para a conquista do mandato e com o qual depois rompeu, triplicou o número de prefeitos eleitos em 2020, saltando de 30 em 2016 para 91 no primeiro turno deste ano. Sem Bolsonaro, a legenda também cresceu nas Câmaras Municipais, passando de 878 vereadores para 1.196.

Sem partido e com imagem arranhada pela desastrada gestão, especialmente na pandemia do coronavírus e na política energética cujo retrato são os transtornos do apagão no Amapá, a tendência, segundo os entrevistados, é que Bolsonaro, candidato ou não à reeleição, siga frágil até encerrar seu mandato em 2022. 

Nem seus adversários de esquerda falam mais em impeachment, embora 53 pedidos tenham sido protocolados, sem que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ) tenha até agora indicado que destino dará a eles. Os líderes do PSB, Alessandro Molon (RJ) e do PCdoB, Perpétua Almeida (AC), ambos signatários de pedidos de impeachment, afirmam que Bolsonaro será derrotado em 2022, como se estivessem convencidos de que a hipótese de afastamento por crime de responsabilidade caiu da agenda. “Não há um entendimento expresso, mas está explícito que existe um acordo tácito para não tirar Bolsonaro por um impeachment, o que não interessa mais a ninguém. 
Sobram motivos para um impeachment, mas a questão é que da direita à esquerda, as correntes políticas perderam o medo de enfrentar Bolsonaro nas urnas e vão deixar que ele sangre até 2022. Ele vai continuar achando que a terra é plana, que o Trump [Donald Trump] vai reverter o resultado das eleições nos Estados Unidos, essas coisas insanas que dominam seu comportamento”, diz o senador Major Olímpio (PSL-SP) que, eleito na esteira do fenômeno bolsonarista em São Paulo em 2018, tornou-se adversário do presidente. Olímpio avalia que Bolsonaro não foi apenas o grande derrotado. O desempenho ruim do presidente, segundo ele, prejudicou a direita.


Sobram motivos para um impeachment, mas a questão é que da direita à esquerda, as correntes políticas perderam o medo de enfrentar Bolsonaro nas urnas”, afirma o senador Major Olímpio (PSL)

“A mensagem do eleitor nesta eleição é a reprovação do comportamento irresponsável de Bolsonaro na condução do país, principalmente durante a pandemia. Bolsonaro perdeu espaço agora e a tendência é que sofra uma derrota ainda mais contundente em 2022. O povo brasileiro está cansado de extremismo”, disse à Pública o líder do PSB na Câmara, Alessandro Molon.

No balanço do primeiro turno, o presidente não conseguiu ajudar nem os candidatos selecionados para as “lives eleitorais gratuitas”, as transmissões pela internet que ele gravou no Palácio da Alvorada – espaço público cujo uso é proibido e está sendo questionado em ação que tramita na Justiça Eleitoral. Bolsonaro pediu votos para 44 candidatos a vereador, 14 prefeitos e sua preferida na eleição suplementar para uma vaga ao Senado pelo Mato Grosso, Coronel Fernanda (Patriota). Apenas dois candidatos a prefeito de capital para os quais Bolsonaro pediu votos em seu “horário eleitoral gratuito” chegaram ao segundo turno: Delegado Eguchi (Patriota), em Belém, e Marcelo Crivella (Republicanos), no Rio. Em Fortaleza, o Capitão Wagner (PROS), que surgiu como liderança atrelada ao bolsonarismo, chegou ao segundo turno descolando a campanha da imagem do presidente. 


O PSB, partido do deputado Alessandro Molon, entrou com pedido de impeachment contra o presidente Jair Bolsonaro por crime de responsabilidade

Em São Paulo, o apoio do presidente foi uma pá de cal na candidatura de Celso Russomano (Republicanos). Entre os 44 candidatos a vereador que Bolsonaro apoiou, apenas nove conseguiram se eleger. O presidente viu encolher o desempenho de seu filho Carlos Bolsonaro que, de mais votado em 2016, passou para segunda posição no Rio, com 35 mil votos a menos. Ele também não conseguiu eleger sua ex-mulher, Rogéria Bolsonaro, mãe dos filhos Flávio, Carlos e Eduardo, que disputou vaga no Rio. Nem ajudou a ex-assessora parlamentar, Walderice Conceição dos Santos, a Wal do Açaí, apontada em reportagem da Folha de S. Paulo como funcionária fantasma de seu antigo gabinete na Câmara dos Deputados. Wal naufragou na disputa em Angra dos Reis, com apenas 266 votos.

O caso do Mato Grosso, meca do agronegócio, foco de crimes ambientais e um dos maiores redutos bolsonaristas do país, foi uma derrota peculiar. Bolsonaro ignorou as candidaturas de um de seus vice-líderes do governo na Câmara, José Medeiros (PODE) e do principal coordenador de sua campanha em 2018 no Estado, Sargento Elizeu Nascimento (DC) e se empenhou na campanha da Coronel Fernanda (Patriota) na eleição suplementar ao Senado. Ela foi derrotada pelo empresário e ex-vice-governador Carlos Fávaro, que estava no exercício do mandato “tampão” deixado pela juíza Selma Arruda, eleita em 2018 pelo PSL e cassada no ano passado por abuso econômico. No começo da campanha, seis dos 11 candidatos disputavam o apoio de Bolsonaro, inclusive Fávaro, que chegou a usar imagens de encontro com o presidente. No curso da disputa, ele cresceu ao descolar do presidente e confrontando Fernanda e o bolsonarismo. Venceu com 371.857 votos, contra 293.362 da adversária.

Sinais de arrefecimento

A líder do PCdoB, Perpétua Almeida afirma que a onda bolsonarista evidenciada no pleito de 2018 apresenta claros sinais de arrefecimento. “Nesta eleição, Bolsonaro foi o grande derrotado nas urnas das principais capitais do país, como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Recife, e percebe-se que seu capital político está em queda vertiginosa, inclusive com perda de votos dentro da própria família. Pesquisas também apontam sua queda de popularidade. Bolsonaro não é um líder que consegue transferir votos ou criar novas lideranças. Egocêntrico e manipulador, será o grande derrotado também nas eleições de 2022”, disse a deputada à Pública.


“Nesta eleição, Bolsonaro foi o grande derrotado nas urnas das principais capitais do país”, avalia a deputada Perpétua Almeida (PCdoB)

Vice-líder do governo na Câmara, o deputado Paulo Lima (PFL-RJ), candidato derrotado às eleições no Rio, onde ficou em quinto lugar, discorda da oposição e afirma que o presidente poderia ser considerado um derrotado se ele estivesse filiado a um partido. “A eleição municipal é diferente da nacional. Ele indicou o voto a candidatos de vários partidos. O fato de estar sem partido e de ter apoiado diversos candidatos, uma salada russa partidária, pirou a cabeça do eleitor”, disse o deputado. Ele reconhece, no entanto, que sem partido o presidente ficou frágil, com desempenho aquém das possibilidades. “Se ele estivesse filiado ao PSL, teríamos eleito 1.500 prefeitos”, afirma.

Em uma série de declarações desencontradas, Bolsonaro tem dado mostras de fadiga e de indecisão quanto ao futuro. Às vésperas da eleição, na rotineira conversa com apoiadores no portão do Palácio da Alvorada, reclamou do ônus do cargo. “É uma desgraça, problema o tempo todo, não tenho paz para absolutamente nada. Não posso mais tomar um caldo de cana na rua, comer um pastel”, disse o presidente, revelando que os 30 anos na política como deputado não lhe deram a noção de que, além de liturgia, o cargo tem bônus e ônus. Depois do fracasso no primeiro turno, admitindo que candidatos apoiados por ele perderam, procurou dissociar a eleição municipal da nacional e jurou que em nenhum momento tem falado como candidato em 2022. “Não polemizei a questão da vacina pensando nas eleições”, exemplificou.

O analista político Melillo Dinis, do Instituto Lampião – Reflexões e Debates sobre Conjuntura, de Brasília, diz que o desempenho fraco do presidente não tem precedente em eleições municipais. Ele acha que Bolsonaro, embora seja cortejado por partidos conservadores, repetirá o equívoco de permanecer “avulso”, mesmo sabendo que o fechamento das urnas em 30 de novembro significa a abertura do processo eleitoral de 2022, o que facilitará o aumento da instabilidade do governo.

Dinis acha que um eventual impeachment dependeria de dois fatores: a unificação do “Fora Bolsonaro” numa pauta que una esquerda com militares descontentes e o cenário econômico com possível agravamento do déficit fiscal, desemprego e falta de recursos até mesmo para conter uma segunda onda do coronavírus. Segundo ele, é provável que o descontentamento nos quartéis, favorecido pela forma humilhante nas demissões de generais Rego Barros, ex- porta-voz do Palácio do Planalto, e Carlos Alberto Santos Cruz convençam os militares, mesmo os que estão em cargos públicos, a apoiar uma eventual troca de Bolsonaro por seu vice, o general Hamilton Mourão. Ele frisa, no entanto, que o futuro de Bolsonaro deve sofrer influência das eleições das Mesas do Senado e Câmara, em fevereiro do ano que vem.

O senador Angelo Coronel, vice-líder do PSD (BA) acha que as eleições municipais devem servir para Bolsonaro refletir sobre os rumos de seu governo. “Todo político é avaliado pelas urnas. Se estiver errado, deve mudar o modus operandi”, diz. O destino dos pedidos de impeachment parados na Câmara, segundo o senador, ainda dependerá do cenário pós-eleições municipais. “Nós não estamos em Brasília, o que impede que se sinta o calor da política. Acho que devemos aguardar as eleições municipais, para não recair em avaliações prematuras”, afirma.


Para o senador Angelo Coronel (PSD), o destino dos pedidos de impeachment depende do cenário pós-eleições municipais

O cientista político e professor da Universidade de Brasília (UnB), Ricardo Caldas avalia que, embora tenha pedido votos a candidatos que perderam a eleição, por não estar filiado a nenhum partido, Bolsonaro não pode ser considerado derrotado nem vitorioso no primeiro turno. “A vitória dos partidos de centro pode facilitar a vida de Bolsonaro no Parlamento”, diz ele. Caldas vê mais risco de instabilidade para o governo na área jurídica em função de processos acumulados no Supremo Tribunal Federal (STF) e Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do que uma eventual crise que política que desemboque em impeachment. “Penso que Bolsonaro vai chegar até o final do mandato”, aposta o analista.

A encruzilhada do partido

Como o projeto de criação da Aliança pelo Brasil não saiu do papel, caso se coloque como candidato a reeleição, Bolsonaro tem como alternativa filiar-se a um dos quatro partidos de direita: o Republicanos, comandado pela Igreja Universal do Reino de Deus, para onde migraram seus dois filhos mais velhos, o senador Flávio Bolsonaro e o vereador reeleito Carlos Bolsonaro; o PSL, onde ainda está filiado outro filho, Eduardo Bolsonaro e mantém a porta aberta para um eventual diálogo; o Patriota, para o qual pediu votos no primeiro turno; e, o PTB, do ex-deputado Roberto Jefferson, que fez uma reformulação em seu estatuto, na convenção nacional realizada na semana passada para se adequar ao perfil conservador de Bolsonaro e seu séquito. 

Entre as mudanças no PTB estão a proibição de coligação com partidos de esquerda, revogação do estatuto do desarmamento, defesa mais intensa de temas como família, vida, pátria e do legado cristão. Jefferson afirmou no evento que “a imprensa e o ativismo dos ministros do STF” buscam criminalizar os cristãos e as igrejas, num movimento que ele chama de “cristofobia”, mas sem fundamento na realidade. Embora a intenção de Jefferson seja escancarar as portas do PTB para receber Bolsonaro, esse desejo divide o diretório nacional. Um novo integrante da executiva nacional ouvido pela Pública, mas que pediu que seu nome não fosse citado, disse que as projeções políticas indicam que Bolsonaro perdeu força como nome da direita para 2022 e que o melhor para o partido seria apostar numa nova liderança que deve emergir dos partidos de centro que saíram fortalecidos.

No PSL o eventual retorno de Bolsonaro divide opiniões. “Sou um entusiasta e sonho com a volta de Bolsonaro ao PSL. Acho que ele não deveria ter saído do partido. Como o Aliança pelo Brasil não atingiu 10% das exigências, se ele não se filiar, corre o risco de não ter tempo de organizar a campanha. Dos 52 do PSL, 45 ainda estão com Bolsonaro. O resto é detalhe”, diz o deputado Paulo Lima. Já o Major Olímpio, cuja desfiliação é exigência do grupo bolsonarista para discutir um eventual retorno, tem posição radicalmente contrária. “Não falo pelo PSL, mas onde eu estiver não quero Bolsonaro nem pintado de ouro”, afirma o senador. Ele faz críticas corrosivas ao comportamento do clã presidencial com a prática da rachadinha em gabinetes parlamentares. “Não convivo com rachadinha. Aprendi que polícia é polícia e ladrão é ladrão”, cutuca.

Derrotas de aliados mostram que ‘Bolsonaro não é mais o mesmo de 2018’, diz cientista político.



A eleição foi municipal, mas a ida dos brasileiros às urnas em 2020 forneceu amostras de novos caminhos na política nacional e até internacional.

A avaliação é do cientista político Sérgio Abranches, para quem "a pandemia de coronavírus cortou o processo de polarização" que nos últimos anos levou à ascensão no mundo de políticos que ajudam a dar nome ao seu livro mais recente, O tempo dos governantes incidentais.

O presidente Jair Bolsonaro é um destes políticos que aposta na polarização — uma orientação que, segundo Abranches, pode estar datada. Para o analista, a derrota de candidatos que o presidente apoiou nas eleições municipais indica que seu fôlego para uma possível candidatura à reeleição em 2022 ficou mais fraco.

"O eleitorado indica que está procurando governantes mais estáveis, mais responsáveis, experientes e certamente que dão valor à ciência e respeitam a doença (a covid-19). E a rejeição ao Bolsonaro está muito associada a isso, a resposta dele à doença", diz o cientista político, autor também de Presidencialismo de coalizão - Raízes e evolução do modelo político brasileiro e A era do imprevisto, entre outros.

"Continuaremos lutando no ano que vem com a pandemia e com a crise econômica. É um cenário muito adverso à polarização e às opções da extrema direita."

Na contramão da polarização, o analista destaca o "ensaio" em Fortaleza de uma frente ampla que uniu diferentes partidos e lideranças políticas na eleição municipal e que poderá ser reproduzida com movimentos semelhantes em 2022.

Particularmente no campo da esquerda, Abranches aponta para o fracasso do PT nas eleições municipais deste ano e destaca a ascensão do PSOL e Guilherme Boulos em São Paulo — que teve uma espécie de derrota vitoriosa, na avaliação de Abranches.

Confira os principais trechos da entrevista.

BBC News Brasil - Algum resultado das eleições municipais serve com uma espécie de termômetro para a política nacional, para o que pode acontecer na eleição presidencial de 2022, por exemplo?

Sérgio Abranches - Um caso importante é o de Fortaleza, em que se ensaiou uma frente ampla contra um candidato que era claramente bolsonarista (Capitão Wagner, do PROS, teve apoio expresso de Bolsonaro). Ciro Gomes (PDT) e Tasso Jereissati (PSDB) se juntaram ao José Sarto (PDT, candidato eleito), que teve também apoio do PT, PSDB, entre outros.

Aliás, os dois candidatos com mais cara de Bolsonaro, que melhor representavam as posições dele, em Fortaleza e em Belém do Pará (onde Edmilson Rodrigues, do PSOL, derrotou o Delegado Federal Eguchi, do Patriota), perderam para a esquerda — com apoio de partidos do centro democrático. São situações que já mostram uma mudança importante (na política nacional).


Para o cientista político Sérgio Abranches, eleição em Fortaleza foi 'ensaio' de frente ampla contra o bolsonarismo

Uma coisa é a esquerda se unir de um lado, o centro de outro, a direita de outro. Isso faz blocos, não frentes. Agora, a frente ampla é aquela que atravessa o campo político-ideológico. Isso talvez se torne muito importante ao longo do ano que vem e no próximo, na preparação para as eleições de 2022.

Não é que a gente voltou ao quadro pré-2018; é que a gente avançou para um quadro novo.

BBC News Brasil - Como já indicou o primeiro turno, a eleição municipal de 2020 se consolida como uma derrota para Bolsonaro?

Abranches - Com certeza. O fato dele de repente ter começado a pedir votos muito no interior, muito nos grotões, mostra a fraqueza dele.

Fica muito evidente nas pesquisas Ibope e Datafolha que, em praticamente todas as capitais, a popularidade de Bolsonaro está caindo muito.

Quando você vê a reprovação do presidente aumentando em todos os Estados, quando vê os candidatos que ele apoiou sendo derrotados fragorosamente, como foi com Crivella no Rio (Marcelo Crivella, derrotado no segundo turno por Eduardo Paes, do DEM) e Celso Russomanno em São Paulo (derrotado no primeiro turno), claramente vê um enfraquecimento.

Bolsonaro já não é mais o mesmo de 2018 e certamente em 2022 não consegue reproduzir o que fez em 2018.

Outro aspecto (observado nesta eleição) é que a rejeição ao PT continua muito forte.

BBC News Brasil - O PT também sai derrotado desta eleição?

Abranches - Com toda a certeza o PT, Lula, Bolsonaro e seus seguidores foram os maiores derrotados nessa eleição.

O PT tem que aprender a viver com novas lideranças dentro dele, tem que permitir a ascensão de novas lideranças. Não pode ficar preso eternamente ao Lula. E o próprio Lula tem que entender que o papel histórico dele mudou. Seu papel como presidente já se esgotou, e o papel histórico dele agora é ajudar o PT a encontrar um caminho novo.

Em São Paulo, com o desgaste do PT e o desempenho pífio de Tatto (Jilmar Tatto, candidato do PT à capital paulista derrotado no primeiro turno, com menos de 9% dos votos), o PSOL passou a fazer o contraponto do PSDB à esquerda. Na cidade de São Paulo, o PSOL ganhou uma enorme musculatura, fazendo a maior bancada da Câmara Municipal junto com o PSDB. É surpreendente porque o PSOL nunca tinha concorrido de forma muito competitiva à Prefeitura de São Paulo.

BBC News Brasil - E como avalia o saldo desta eleição para Guilherme Boulos (candidato do PSOL à capital paulista derrotado no segundo turno por Bruno Covas, do PSDB)?

Abranches - O Guilherme Boulos fez uma campanha surpreendente, muito bem feita, e conseguiu ir para o segundo turno.

Perder com 40% (dos votos) é daquelas derrotas que projetam liderança.

São derrotas exemplares porque revelam uma liderança emergente que mesmo não tendo conseguido chegar à vitória, tem uma série de características que a população está buscando naquele campo — no caso (de Boulos), a esquerda.

Acho que isso aconteceu com o Lula contra o (Fernando) Collor (na disputa pela presidência em 1989); e com Fernando Henrique Cardoso na derrota para a prefeitura de São Paulo (em 1985).

Tem certas vitórias que são menos importantes do que certas derrotas.

PSOL e o Boulos não têm mais condições de serem tratados como satélites do PT. E acho que a mesma coisa é verdade, em menor escala, com relação à Manuela (D'Avila, do PC do B, derrotada no segundo turno por Sebastião Melo, do MDB) em Porto Alegre. É uma estrela emergente, foi vice do Haddad (Fernando Haddad, candidato do PT à presidência em 2018) e que não foi contaminada pela rejeição ao PT. E isso conta também para dar ao PC do B um pouco mais de luz própria.

E o segundo turno em São Paulo foi a disputa mais civilizada que teve no Brasil inteiro — o Covas e o Boulos fizeram uma campanha baseada principalmente em seus programas de governo, na suas divergências políticas.

BBC News Brasil - A vitória de Covas em São Paulo é também uma vitória de João Doria (governador de São Paulo pelo PSDB e de quem Covas era vice-prefeito na eleição de 2016)? Isso poderia aumentar a força de Doria caso ele se confirme como candidato à presidência em 2022?

Abranches - O Covas foi eleito mais por causa dele do que pelo Doria, porque o Doria está com uma avaliação muito negativa na cidade de São Paulo.

E o Covas não trouxe o Doria para a campanha dele, só agora no discurso da vitória.


Em São Paulo, Doria posa ao lado de Bruno Covas, que foi reeleito prefeito na maior cidade do país

Acho que de qualquer forma o Covas, o Doria e o Eduardo Leite (governador do Rio Grande do Sul, cujos aliados conquistaram muitas prefeituras no Estado) ajudam a recuperar o PSDB da trajetória de declínio que vinha acelerada. Por outro lado, a vitória do Covas não unifica o PSDB, porque o partido continua dividido.

BBC News Brasil - No primeiro turno, alguns analistas observaram que o eleitorado parecia estar buscando candidatos que representassem a estabilidade, diante das turbulências trazidas pela pandemia de coronavírus e por um cenário político e econômico instável. Você concorda?

Abranches - No primeiro turno, todos os prefeitos que se comportaram mal foram demitidos (pelo voto). E todos que se saíram bem na questão da pandemia, como em Belo Horizonte, foram eleitos ou fizeram sucessor no primeiro turno.

O Rio foi um caso mais específico, sobrou o Crivella — que foi agora demitido no segundo turno.

A taxa de reeleição foi muito alta nessas eleições, e o que fez com que o candidato não se reelegesse foi se ele teve um comportamento destoante no que diz respeito à pandemia — se não promoveu o isolamento, ações de saúde, não foi reeleito. Os que se comportaram bem na pandemia foram reeleitos.

O eleitorado indica que está procurando governantes mais estáveis, mais responsáveis, experientes e certamente que dão valor à ciência e respeitam a doença.

E a rejeição ao Bolsonaro está muito associada a isso, a resposta dele à doença.

A pandemia cortou o processo de polarização. Ela fez um desvio no processo histórico, porque em vez de dividir o país entre "nós" e "eles", daquele jeito da polarização radicalizada, passou a separar aqueles que respeitam a pandemia e os que seguiram o caminho do Bolsonaro de tratar a pandemia com descaso — produzindo mais mortes e mais sofrimento.

Continuaremos lutando no ano que vem com a pandemia e com a crise econômica. É um cenário muito adverso à polarização e às opções da extrema direita.

BBC News Brasil - Eleições municipais e nacionais não são muito comparáveis, mas, em 2018, candidatos à Presidência que se apresentaram com um perfil dito unificador tiveram um percentual pífio de votação. Os resultados nesta eleição municipal de candidatos que se colocaram como moderados, de centro, mostram que este tipo de candidatura pode ter mais chances na política nacional daqui para frente?

Abranches - Sim, não tenho menor dúvida. No meu último livro, O tempo dos governantes incidentais, eu disse exatamente isso — que governantes como Trump e Bolsonaro têm fôlego curto. Se não conseguem interromper o processo democrático de tal forma que garanta sua reeleição mudando as regras no primeiro mandato, não conseguem se reeleger.

São eleitos em eleições muito atípicas, muito singulares, que não se repetem.

E conseguem, de uma forma até surpreendente, reunir em torno deles uma quantidade de demandas muito difusas — mais de aversão ao que estava, do que de fato apoio a uma proposta.

Certamente a maior parte das pessoas que votou no Bolsonaro não concorda minimamente com a agenda que ele acha importante — a agenda do "escola sem partido", arma na mão de todo mundo...


Analistas dizem que resultado das eleições municipais não decretam derrota fatal para Bolsonaro

A maioria das pessoas não concorda, nem se deu conta de que era essa a agenda dele. Ele foi revelando que a agenda é outra — demitiu o Moro, acabou com a Lava-Jato, se uniu com os caras que estão sendo processados pela Lava-Jato... Eles (esses governantes) vão dissipando um capital eleitoral muito efêmero, muito especulativo, que formaram nessa eleição atípica e singular.

Eles não conseguem reproduzir essa situação na eleição seguinte.

Agora, em 2020, o que vai ser julgado será um governo que produziu o segundo pior resultado do mundo na pandemia e uma crise econômica absurda.

O que vai estar sendo julgado não é mais o governo do PT, nem a Lava-Jato. Vai ser o governo do Bolsonaro, o fim da Lava-Jato, o aumento da inflação, a crise, a pandemia... Mudou a agenda do país.

E provavelmente 2022 ainda vai ser uma eleição atípica, porque muito marcada pela pandemia e pela crise econômica e social.

BBC News Brasil - Da mesma forma que esses políticos entraram na política de forma atípica, com métodos imprevisíveis, não é também difícil prever que o ciclo deles se encerrou, como o senhor está indicando?

Abranches - Acho que é mais previsível decretar o fim deles do que estimar a vitória deles inicialmente. A vitória deles é uma surpresa, a derrota deles não é.

E o Bolsonaro não está fazendo nada para que ganhe — ele está sem partido, não faz alianças e continua hostilizando todo mundo. E o Brasil não quer agressividade, você vê que os discursos mais agressivos foram derrotados (nas eleições municipais).

Ele ainda tem a máquina federal e pode causar muito dano à democracia, mas é uma candidatura muito vulnerável.

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